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domingo, 25 de dezembro de 2016

04 - A MEMÓRIA DOS HOMENS * O rimance (necessário) do natal





Naquele tempo, Roma impunha o seu Império!

A força do Poder calcava a Palestina!

Só uma paz havia --- a paz do cemitério!

É vil a tirania! E, bárbara, assassina!



Sofria o Povo a dor ferida dos vexames!

Na Pátria que era sua, impunham-se os estranhos!

Se a resistência ousava uns tímidos tentames,

a lei impunha ao Povo agruras e arreganhos.



Desordem ordenada. Absurda impunidade.

Mordiam os mastins. A raiva à luz do dia.

Ninguém pode gritar um viva a liberdade!

O Povo assusta Roma! O Povo que sofria!



Senhora do maior Império deste Mundo!

Tropel de legiões! O medo é violento.

A surda profecia é um andrajo imundo,

lavado de suor, calando a voz do vento.



Cumprindo a lei, lá vai a grávida Maria…

Jerusalém é longe… incerta é a chegada.

Exausto de opressão, o Povo obedecia.

Outras Marias vão, doendo a mesma estrada…



A Natureza-Mãe sorri da tirania.

Tiranos tantos viu que lhes perdeu a conta!

E quantos mais verá se o sangue, cada dia,

insiste em derramar-se em pântanos de afronta?



Herodes é o rei. O títere amestrado.

Roma pagou o preço, em saldo, dos traidores…

Que importa que Maria, exausta, ceda às dores?

Que importa mais um parto assim desesperado?



Cumprida a gravidez, o tempo é de nascer!

Com todo o seu império, a Roma possidente

atónita ficou, sem conseguir deter

o ventre humilde e em dor duma parturiente…



Maria deu à luz em data e hora incertas.

O mês, o dia… pois… isso que importa agora?

Nos basta que pariu… e que, de asas abertas,

um anjo anunciou, na noite, uma ígnea aurora.



Cresceu o seu menino até ao infinito…

Foi mestre e desprezou riquezas e vãs glórias…

Traído e morto foi… num torpe veredicto…

Depois, diversas são, no mito, as trajectórias…





José-Augusto de Carvalho
In “O meu cancioneiro”, Setembro de 2009.

domingo, 11 de dezembro de 2016

04 - A MEMÓRIA DOS HOMENS * A detenção do maltês


Este é o relato.

O maltês, que sempre vinha à feira, ano após ano, deambulava por entre as pessoas, gritando:

Quem muito dorme pouco aprende! Acordem!

Indiferentes, as pessoas fingiam não o ouvir. Uma ou outra murmurava:

É doido, para que lhe havia de dar!

O maltês não se dirigia directamente a ninguém. Se alguém o olhava com curiosidade ou como que mudamente o interpelava, não desviava o olhar nem parava e gritava:

Acordem!

Um dos membros da patrulha da Guarda Nacional Republicana aproximou-se dele e quis saber o motivo da exortação do maltês:

--- Então que se passa?

--- Esta gente parece não sentir como elas lhe mordem, senhor guarda.

--- Ah, sim?!, ironizou o agente da Autoridade.

--- É como lhe digo, confirmou o maltês.

O guarda olhou interrogativamente o camarada da patrulha:

Que fazer? Aquilo seria perturbação da ordem pública?

O outro guarda opinou:

--- É melhor levarmos o gajo ao comandante, assim ficamos a salvo de qualquer encrenca.

E lá foram, o maltês ladeado pelos guardas, rumo à vila. As pessoas olharam silenciosamente enquanto se afastavam, abrindo alas. As mais novas manifestavam uma curiosidade contida; as mais velhas, uma preocupação apenas perceptível num baixar de olhos ou num reprovador menear de cabeça.

Chegados ao Posto local da GNR, apresentaram-se ao comandante, um 1º. Cabo. Os soldados relataram a conduta do maltês e o motivo da sua detenção.

O comandante concordou com um movimento afirmativo de cabeça e fixou o olhar no detido. Depois, perguntou:

--- O detido ofereceu resistência?

--- Não, senhor! , responderam os guardas, ao mesmo tempo.

--- Na feira, as pessoas sentiram-se incomodadas com a conduta do detido?

--- Não, senhor! , de novo responderam em uníssono os guardas.

O comandante parecia meditar enquanto olhava o maltês. Seguidamente, disse:

--- Bem, vamos ao interrogatório…

Um dos guardas sentou-se à secretária para elaborar o auto e o outro saiu da sala.

--- Como te chamas?, perguntou o comandante ao maltês.

--- António Almas.

--- Qual é a tua profissão?

--- Trabalhador.


--- Isso somos todos, resmungou o comandante. --- Trabalhador de quê? O que fazes na vida?
--- Trabalhador do campo, precisou o maltês.

--- És natural de onde? Isto é, onde nasceste?
--- Não sei ao certo, sei que foi num monte, perto do Odiana, era o que dizia a minha mãe.

--- Sabes ler?

--- Não sei, nunca fui à escola.

--- És casado? Tens filhos?

--- Tive mulher. Morreu ela e a criança ao nascer.

--- Que vieste fazer à feira?

--- Acordar quem dorme?

--- Ah, sim?, estranhou o cabo da guarda.

--- Sim, senhor, quem muito dorme pouco aprende! , sentenciou o maltês.

--- Que queres tu dizer com isso?, perguntou o cabo da guarda enquanto lançava um olhar cúmplice ao guarda que registava a interrogatório.

--- Quero dizer o que disse, mais nada: quem muito dorme pouco aprende.

--- E onde aprendeste tu isso?,
quis saber o cabo da guarda.

O maltês encolheu os ombros.

O cabo da guarda não gostou do encolher de ombros e gritou:

--- Responde ao que perguntei!

Muito sereno, o maltês respondeu:

--- Toda gente sabe isto. Já minha mãe me dizia isso: filho, não fiques dormindo a sesta! Não sejas malandro! Vai procurar trabalho para ganhares para as sopas! Olha que quem muito dorme pouco aprende! 


--- Isso é política!, voltou o cabo da guarda a gritar.

--- Isso eu já não sei, disse suavemente o maltês.

Desconcertado, o cabo da guarda olhou o maltês. Seria aquele homem um pobre diabo ou um finório? E recordava a recomendação superior: na dúvida, arrecada-se.

--- Acabou o interrogatório, decidiu. --- Ficas detido e amanhã de manhã segues para a cidade. Lá, o Comando Distrital tratará de ti.


José-Augusto de Carvalho
Alentejo, Novembro de 2016.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

04 - A MEMÓRIA DOS HOMENS * Outroragora




De tanto ver triunfar as nulidades, 

de tanto ver prosperar a desonra, 

de tanto ver crescer a injustiça, 

de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus,

o homem chega a desanimar da virtude, 

a rir-se da honra, 

a ter vergonha de ser honesto. 



*
(Senado Federal, RJ. Obras Completas, Rui Barbosa. v. 41, t. 3, 1914, p. 86)
*
Nome literário: BARBOSA, RUI
Nome completo: OLIVEIRA, RUI BARBOSA DE
Nascimento: 5 de novembro de 1849, Salvador, Bahia
Falecimento: 1923, em Petrópolis, Rio de Janeiro

terça-feira, 5 de novembro de 2013

04 - A MEMÓRIA DOS HOMENS * O remorso de Tomé


O avisado e incrédulo Tomé sabia que a sua terra vivia tempos difíceis. A nostalgia da promessa do pão repartido ameaçava desvanecer-se como uma miragem? A velha Estrada de Damasco perdera também o fascínio de outras eras? Sem memória nem alento, o tempo parara? As legiões estrangeiras impunham a Lei estrangeira. Os vendilhões reverenciavam os opressores e comiam sofregamente as migalhas da mesa da abastança paga pelos impostos que esmagavam o povo sob a divisa trágica: A César o que é de César! Numa ironia obscena, era de César o dinheiro do povo subjugado à Lei opressiva e estrangeira…

Ah, mas os velhos falavam da utopia, segurando nas mãos trémulas os cajados que iam amparando o que restava do alento de outros tempos.

Os meninos já não jogavam ao berlinde nem ao pião; as meninas já não jogavam as sete pedrinhas nem cantavam de roda o jardim da celeste; os adolescentes já não disputavam o espaço com os seus papagaios de papel; as adolescentes já não olhavam para a sombra nem sonhavam ruborizadas com os enleios da puberdade. Já não! Agora, desgraçadamente, os novos absorviam valores estranhos, que os envileciam e descaracterizavam; valores que mais e mais provocavam a sua dependência e a sua pobreza.

Da mesa da abastança estrangeira continuavam caindo as migalhas caritativas. Quem dá aos pobres, empresta a Deus! E assim persistiam, num desafio, os reverenciados esmoleres e os seus indispensáveis mendigos. A caridadezinha dos poderosos impunha-se e esmagava os direitos de um povo!

Por oposição à utopia dos velhos, os novos, formatados pela opressão alienante, acreditavam ter descoberto que as estradas eram só estradas e recusavam-lhes o fascínio do simbolismo duma direcção.

E o mar, ah, o mar!, era apenas o ócio da praia ensolarada e os mergulhos nas ondas que vinham desmaiar docemente no areal. O mar já não era mais a largada nem o regresso! O mar já não era mais o ponto de partida e o ponto de chegada!

E os campos, ah os campos!, eram a faina ultrapassada das searas de pão; eram a labuta ultrapassada das hortas donde vinham as couves e as batatas, as alfaces e o feijão, os espinafres e o grão de bico; eram os perdidos pomares, sempre melindrosos, donde vinham os frutos maduros, suculentos e doces; eram as vinhas imensas dourando ao sol no milagre do vinho a haver; eram os hoje cada vez mais raros animais mansos e os animais bravios numa partilha nem sempre harmoniosa do espaço; eram, afinal, o pão suado e honesto da ceia que a Lei estrangeira e os vendilhões haviam tornado impossível.

Os velhos interrogavam-se: como chegámos aqui? Onde errámos na preparação dos nossos filhos e, por eles e com eles, a construção dos Tempos? Que força impõe um templo de fariseus e de cambistas? Para quando um novo chicote expulsando de vez os vendilhões do Templo da Pátria?

Exausto, o velho Tomé, meneando cabeça, dizia de si para si: de que me serviu ser avisado? De que me serviu ser incrédulo? O meu remorso será sempre não ter deixado a mensagem fundamental: Quem não luta, perde sempre!



José-Augusto de Carvalho
5 de Novembro de 2013.
Viana*Évora*Portugal

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

04 - A MEMÓRIA DOS HOMENS * Rimance

OS FANTASMAS DA MEMÓRIA

RIMANCE DO LUA NOVA
Rio Guadiana - O pulo do lobo


Lua Nova era o meu nome
de registo de campanha
quando resistia à fome
lá para a raia de Espanha.
*
Clandestino até no lar,
nem à mulher concedia
saber qual o meu andar
ou ao certo o que fazia.
*
Aos trabalhos da lavoura
me entregara de menino.
Outra sorte melhor fora,
mas tive esta por destino.
*
Neste saber várias artes,
saltava de galho em galho.
Em qualquer de tantas partes,
tinha agasalho e trabalho.
*
De empreitada, ali ceifava;
mais além, era a cortiça;
nos tempos mortos, parava
e dava o corpo à preguiça.
*
Sempre com desembaraço,
a minha jorna suava.
Nunca neguei o meu braço
à tarefa que acertava.
*
Ah, mas num dia azarado,
e quem os não tem na vida?,
fiquei incapacitado
para a minha dura lida.
*
Experto entre tantas liças,
eu já conhecera mundo…
Sabia até que a cortiça
boia e nunca vai ao fundo!...
*
Sob a manta de maltês,
andava de monte em monte;
rasgava, de quando em vez,
as trevas deste horizonte.
*
Passava a salto o Guadiana,
entrava em terras de Espanha…
A Guarda Fiscal se dana
e grita: ninguém o apanha?
*
Ia e vinha, sempre a pé,
a noite me protegia…
Cada carga de café
boa féria me rendia…
*
Lua Nova, a minha alcunha,
deu rimance popular.
Até eu fui testemunha
de tanto o ouvir cantar…
*
Lua Nova é uma lenda,
o Alentejo é um destino;
não há aqui quem se renda,
às claras ou clandestino.
*
Apanhá-lo quem se atreve?
Quem consegue tal façanha?
Em Portugal é pé leve
e pé leve é em Espanha!
*
Aquém ou além Guadiana,
desmonta qualquer ardil:
a Guarda Fiscal engana,
engana a Guardia Civil…
*
Entre limpas e montados,
astuto também engana
o ardis sempre aprontados
p'la Guarda Republicana.
*
Lua Nova, morto ou vivo,
hoje é já a lenda viva
que serve de lenitivo
à vida sempre cativa.
*
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 26 de Novembro de 2012

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

04 - A MEMÓRIA DOS HOMENS * Lição de História



Judas traiu,

Pedro negou,

Roma lavou as mãos e sorriu...



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 12 de Janeiro de 2012.
(In «Caleidoscópio», a publicar)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

04 - A MEMÓRIA DOS HOMENS * Talvez um poema de Natal





Para além da falácia das leis,
no granito esculpida,
há momentos, na Vida,
em que todos os homens são reis.

Os momentos totais da grandeza
que, gerando destinos a esmo,
dão ao Homem a luz da certeza
da promessa cumprida em si mesmo.

Os momentos dum Gólgota aflito,
sufocado p'las nuvens escuras...
Dimensão, sem tamanho, num grito
a rasgar profundezas e alturas...

É urgente, no tempo perjuro,
situar o Presente
e querer, definitivamente,
prevenir o Futuro.



José-Augusto de Carvalho
In Vivo e desnudo, 1996.

domingo, 13 de dezembro de 2009

04 - A MEMÓRIA DOS HOMENS * O Monte das Águias


Da aldeia de Alambra, o Monte das Águias dista quase uma légua e com um ribeiro cruzando o caminho. É o Ribeiro das Águias, seco no verão, mas um danado nos dias de invernia puxados a chuva.
José das Águias, conhecido nas redondezas por Ti’Zé das Águias, era o único habitante do Monte.
Seguramente, José era o seu nome. Nascera num tempo em que os sobrenomes raramente eram indicados e se sucediam aos nomes próprios, aquando do registo de nascimento. O sobrenome das Águias deveria ter sido tomado de empréstimo ao Monte assim designado, onde nascera e sempre vivera, exceptuados os anos de cumprimento do serviço militar.
José das Águias era um veterano da Grande Guerra de 1914-18. Da Flandres trouxera a memória ensanguentada da violência dos homens e as consequências, não muito graves, dos gases alemães. A sua constante companheira era uma caçadeira «Liegeoise», calibre 16, e o Lampeiro, um fiel cão de caça, sentido deveras, dando sinal de intruso a grande distância.
Lampeiro era um cão feliz. Se era o melhor amigo do dono, também tinha no dono o seu melhor amigo. Tinha vida livre e tratamento privilegiado. Dormia onde queria, sob telhas ou ao relento, conforme decidisse, e comia com o dono, numa tocante partilha igualitária. A sua ocupação era estar atento aos intrusos e parar uma ou outra peça de caça.
Lampeiro raramente ia à aldeia. O dono confiava-lhe a guarda do Monte sempre que se ausentava.
Ti’Zé das Águias ia sempre ao romper do dia. Lá fazia o seu avio, petiscava na venda do Jerónimo e regressava pouco depois, chegando sempre ao Monte antes de anoitecer. Era uma hora e meia de caminho na ida e uma hora e meia de caminho no regresso. Caminhava bem, como bom caçador que era, mas a passada ficara mais lenta, vergado às limitações que a idade trouxera.
Ti’Zé das Águias nunca casara. A sua ocupação fora sempre zelar pelo Monte. E assim continuaria, pois era essa a sua vontade e o interesse do dono do Monte, um doutor que vivia na cidade e ali se deslocava, de vez em quando, quase que só nos tempos da caça.
O mês de Dezembro vinha frio e sem chuva. A nortada assobiava. Ti’Zé das Águias acendia a lareira antes do amanhecer. Aquecia água numa panela de ferro talvez mais velha do que ele. Fazia café, o tradicional café de mistura, que trazia da aldeia. Depois, bebia uma caneca do café ainda bem quente e comia pão e linguiça, habilmente cortados com a navalha.
Sentado a seu lado, Lampeiro sempre petiscava com o dono.
Apenas o tempo chuvoso prejudicava as idas à aldeia. Tio’Zé das Águias não confiava no ribeiro nem na ponte de madeira, tão baixa que, à mais pequena enxurrada, a água lambia o tabuleiro e a estrutura gemia aflita. Lembrava-se que, quando mais novo, várias vezes passara a ponte com o tabuleiro completamente coberto de água. Agora, a velhice aconselhava-lhe a maior prudência.
Já se vivia a quadra do natal. Na aldeia, as mulheres andavam preocupadas com as crianças. Vivia-se, mais uma vez, o período de gastarem o que mal podiam numas roupas para elas, novas ou transformadas. Era a memória do menino que nascera há quase dois mil anos. E era a memória dele que projectava um carinho acrescido sobre as suas crianças.
Ti’Zé das Águias entendia o natal assim: o tempo das crianças. Ouvira falar vagamente da história daquele menino. Em outro tempo, quando tinha de ir à vila tratar de alguns assuntos do Monte, vira a animação na quadra do natal; mas isso fora há muito, ainda o patrão era vivo e a agricultura na herdade era de grande azáfama. Depois da morte do patrão, a situação modificara-se. O menino Luís era doutor e não tinha tempo para olhar pela herdade. Não tinha tempo e nem era homem do campo. Quase só o via pelas rolas, em Agosto; e, depois, quando abria a caça geral, em Outubro. E só aos fins-de-semana.
Naquele fim de tarde e antevéspera de natal, Lampeiro deu sinal. Ti’Zé das Águias veio à porta ver o que se passava. Avistou uma mulher, ainda longe, que caminhava vagarosamente. Esperou que ela se aproximasse, para saber quem era. E ficou surpreendido quando verificou que não a conhecia. Quem seria? E o que quereria dele? E foi ainda a braços com a interrogação que a mulher chegou.
Sem temor, a mulher saudou-o com um boa tarde, senhor!Ti’Zé das Águias correspondeu à saudação e esperou que ela lhe dissesse ao que ia.
Senhor, começou a mulher, não me conhece, mas sou pessoa de bem e venho pedir-lhe agasalho; e enquanto aqui estiver, poderei dar uma ajuda na casa.Ti’Zé das Águias convidou-a a entrar e a aquecer-se na lareira. A mulher agradeceu e entrou. Pousou a um canto a trouxa de roupa que trazia e foi aquecer-se.
Sentados, em silêncio, olhavam o lume. Passados uns largos minutos, Ti’Zé puxou da navalha e arretalhou umas bolotas que a mulher dispôs sob a cinza escaldante.
Assadas as bolotas, comeram com gosto e falaram da Vida e das suas vidas.
Ti’Zé ficou sabendo que a mulher, uma mulher exausta das inclemências da existência e precocemente envelhecida, se chamava Maria do Céu, que era viúva, sem filhos, que andaria pelos sessenta anos, e que decidira abandonar os subúrbios da cidade e regressar para sempre ao Sul, sem nada de seu e sem destino definido.
Lampeiro olhava o lume e achava normal toda a situação.
No dia seguinte, a mulher levantou-se com a aurora e começou a tratar da casa. Quando ti’Zé apareceu, pouco depois, já a panela de ferro chiava na lareira.
Ti’Zé olhou, satisfeito. E disse de si para si: temos mulher!A mulher, ao vê-lo, deu-lhe os bons dias e disse: esta casa está precisando duma barrela ao meu jeito. E, logo à noite, de uma ceia, porque é véspera de natal.
Ti’Zé correspondeu à saudação e sorriu. Depois, sentou-se à lareira e comeu, como habitualmente: uma caneca de café e uma fatia grossa de pão com linguiça. A mulher acompanhou-o na refeição. E Lampeiro teve, pela primeira vez, duas pessoas a repartir com ele comida e carinho.
Lá fora, o dia resplandecia sob o sol nascente e um céu todo azul. Nos álamos, a passarada gorjeava, num hino de amor à vida. As galinhas, sempre madrugadoras, há muito que andavam por ali. Saíam e recolhiam a seu bel-prazer, sem peias.
Ti’Zé das Águias saiu, para ver o dia e inspeccionar todas as redondezas da habitação. A tranquilidade era plena. Apenas a nortada assobiava. Era o nordeste, trazendo de Espanha aquele frio seco.
Desceu uns metros até ao poço. Bem perto, o quinchoso, muito bem tratado. Ali, Ti’Zé tinha as suas verduras, os cheiros e algumas árvores de fruto. Só comprava na aldeia o que a terra não dava.
Regressado a casa, pediu a Maria que o acompanhasse, para lhe indicar o quinchoso, o poço e o galinheiro. Ela seguiu-o, satisfeita. Percebia que encontrara um lar e que a vida lhe sorria.
Cerca do meio-dia, uma açorda de poejos com bacalhau e azeitonas novas foi a refeição. Comeram devagar, entre palavras arrastadas e silêncios prolongados. A mulher falou da infância triste, da adolescência suada nos campos, e do seu homem, com quem se juntara aos 19 anos, da ida, com o seu Tóino, para os subúrbios da cidade grande, do acidente que o vitimou, na construção civil, e da sua decisão de regressar ao Sul, sem eira nem beira, confiando no destino. Ti’Zé das Águias falou do pai, caseiro no Monte, e da mãe, dois mouros de trabalho. Ali nascera e ali ficara como ajuda do pai. Depois, a guerra levara-o. Quando regressou, continuou como ajuda até à morte do pai. A mãe pouco tempo sobreviveu ao companheiro. Ficou, então, sozinho, como caseiro. Ensinou ao menino Luís, o filho do patrão, os segredos e mistérios da vida animal e vegetal, a caçar, as andanças das aves de arribação e outras tantas coisas do campo. O menino foi crescendo e estudando. Saiu doutor e fixou-se na cidade. Depois, aconteceu a morte do patrão e o fim da agricultura. O rendimento da herdade era agora a cortiça, a lenha e as pastagens. Ficara no Monte para olhar por tudo.
Já o dia declinava quando a mulher levantou a mesa e lavou a louça. Depois, foi tratar da ceia para a longa noite de Inverno.
Ti’Zé das Águias saiu para o terreiro. Ali esteve até ao lusco-fusco. O vento amainara e o pôr de sol era uma aguarela incendiada.
Lampeiro dividia o seu tempo entre a casa e o terreiro. Em casa, sentado à lareira; no terreiro, ora andando de um lado para outro, farejando e olhando, ora a ventos, procurando perceber o que se passaria nas redondezas, ora estiraçado ao sol que, baixo, quase nada aquecia
Ti’Zé das Águias, regressando a casa, foi sentar-se à lareira. Lampeiro seguiu-o.
Maria preparava para a ceia um frango de cabidela. Haveria figos secos e nozes à sobremesa. Passariam a meia-noite à lareira.
Um manto de paz descera sobre o Monte. Maria foi olhar o tempo. Voltando para dentro, disse: o céu está todo limpo e cheiinho de estrelas. Teremos uma noite linda.Ti’Zé assentiu com um gesto.
Diligente, Maria tratava de alindar a mesa. Ti’Zé ajeitou o lume, levantou-se e foi lavar as mãos. Depois, sentou-se à mesa, para jantar. Lampeiro, seguindo o dono, sentou-se a seu lado. Maria sentou-se também à mesa e serviu a janta.
Ti’Zé, enquanto comia, elogiou: Ah, Maria, há quantos anos eu não provava uma cabidela assim! Desde a morte da minha mãe, acho eu.Maria, agradecida, respondeu, com um sorriso: Ainda bem que está ao seu gosto, Ti’Zé.
Lampeiro,
sentado entre ambos, olhava, ora para um, ora para outro, seguindo o diálogo.
Puxando do seu velho relógio de algibeira, Ti’Zé exclamou: aqui estamos ceando e as horas correndo. É meu costume deitar-me cedo, mas, hoje, teremos de passar a meia-noite a pé, pois o tal menino dizem ter vindo ao mundo a essa hora.
É verdade
, confirmou Maria. Assim reza a tradição e também lá na cidade assim ouvi. E prosseguiu: Lá na cidade era uma canseira, toda aquela gente de um lado para o outro, comprando roupas e brinquedos para as crianças. Era um grande negócio para as lojas!Ti’Zé, atalhou: Pois, deveria ser. Vi essa canseira na vila. Não seria igual, mas teria as suas parecenças. Aqui, na aldeia, as coisas não são assim. O povo mal ganha para o sustento. E as crianças terão de se sujeitar, coitadinhas!
Tadinhas delas
, lamentou Maria. Dizem que somos todos iguais, mas o natal e tudo o mais está sujeito à força do dinheiro. E também dizem que o menino nasceu pobrezinho para dar o exemplo…
É verdade, também ouvi dizer isso
, confirmou Ti’Zé das Águias, mas, pelos vistos, o exemplo deste menino não medrou. Isto de ser rico e querer ser pobre é uma história muito mal amanhada!Maria, sorrindo, rematou: Se fosse bom ser pobre, não haveria ricos…Ti’Zé das Águias sorriu também e disse: É bom conversar destas coisas da Vida, mas não adianta. A força está nas mãos de quem manda. O povo vai esperando por dias melhores, mas ninguém sabe quando será. Sabe, Maria, quem tem a barriga cheia não se lembra de quem tem fome.Maria confirmou: É verdade e esse ditado diz tudo. Diz-se agora que as coisas vão mal lá para as Africas e que já mandaram soldados para lá. É mais uma desgraça que vem aí!Ti’Zé das Águias sentenciou: Os homens não se entendem. O que um quer, o outro não quer. E o povo é só penar! Sabe uma coisa: se só houvesse dois homens, um seria contrabandista e o outro guarda-fiscal. É assim, não se entendem, não há união.
Eu sempre vi o mundo assim. E vou morrer sem ver mudança. Já não me adianta esperar. Pode ser que os mais novos ainda vejam alguma coisa de melhor. Eu já não tenho idade para lá chegar.
As horas passavam e a meia-noite estava prestes. Passaram da mesa para a lareira. Maria levou um taleiguito de figos e Ti’Zé começou a partir as nozes.
Maria comentou, divertida: Já viu que eu me chamo Maria e vosmicê se chama José? É verdade! Só falta aqui um menino…Ti’Zé recomendou: Juízo, Maria! Dizem que é a Sagrada Família e a gente não é assim.Maria apressou-se a esclarecer: Foi só uma brincadeira, não ofendi ninguém.
Tá visto que não
, reconheceu o velho. E, brincadeira por brincadeira, o seu nome é Maria do Céu e o meu é José das Águias. E as águias voam por essas alturas além…
Contrariamente ao que Ti’Zé poderia supor, a mulher não aderiu ao gracejo. Ficou pensativa e inquieta. Depois, num murmúrio, arriscou: Ti’Zé, até parece que foi o destino que me trouxe a pedir-lhe agasalho e fez com que vosmicê mo desse!...Ti’Zé das Águias olhou-a fixamente. E assim ficaram, olhos nos olhos, como que querendo cada um sondar o que o outro pensava. Parecia que o tempo parara. Até que Maria do Céu, despertando daquele enleio, disse, arrebatada: É isso, Ti’Zé! Foi um milagre! O nosso milagre de natal!
*
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 12 de Dezembro de 2009.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

04 - A MEMÓRIA DOS HOMENS * Era o Tempo parado






E tanto por dizer ficou estrangulado
nas malhas do silêncio azul e da clausura!
Do risco de falar ao de ficar calado,
medrava em cada olhar o esgar duma censura.

Era o Tempo parado
dos altares pagãos
onde foi imolado,
por atávicas mãos,
o devir revelado.

Difusa, em cada esquina, a sombra desenhava,
na mancha que sangrava as pedras da calçada,
o desvario que, insone e plúmbeo, procurava
a brisa que trazia a nova perfumada.

Era o tempo parado
dos desígnios fatais
dum fantasma danado
a negar os sinais
do devir revelado.

Ah, meu amigo, e tu nos longes por haver,
ainda do silêncio infausto tão distante,
vivias, no mistério, a sedução de ser
um astro mais do céu, a lucilar, errante.

Era o tempo parado
da vergonha de nós,
no estertor resignado
e no medo sem voz
a render-se calado,


Chegaste, agora, são e salvo, e o tempo é teu!
Bem-vindo sejas! Vem, no tempo que em ti cresce,
ser mais um cravo-Abril, que o dia amanheceu!
E deixa-te orvalhar de auroras e floresce!



José-Augusto de Carvalho
19/5/2009
Viana * Évora * Portugal

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

04 - A MEMÓRIA DOS HOMENS * Sentença



«O homem é
a medida
de todas as coisas.»
.
Protágoras

sábado, 12 de julho de 2008

04 - A MEMÓRIA DOS HOMENS - Quem silencia o outro 11 de Setembro?


Os Fantasmas da Memória Santiago do Chile, 11 de Setembro de 1973

Seguramente esta es la última oportunidad en que me pueda dirigir a ustedes. La Fuerza Aérea ha bombardeado las torres de Radio Portales y Radio Corporación. Mis palabras no tienen amargura, sino decepción, y serán ellas el castigo moral para los que han traicionado el juramento que hicieron... soldados de Chile, comandantes en jefe titulares, el almirante Merino que se ha autodesignado, más el señor Mendoza, general rastrero ... que sólo ayer manifestara su fidelidad y lealtad al gobierno, también se ha nominado director general de Carabineros.

Ante estos hechos, sólo me cabe decirle a los trabajadores:

¡Yo no voy a renunciar! Colocado en un tránsito histórico, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Y les digo que tengo la certeza de que la semilla que entregáramos a la conciencia digna de miles y miles de chilenos, no podrá ser segada definitivamente.

Tienen la fuerza, podrán avasallarnos, pero no se detienen los procesos sociales ni con el crimen... ni con la fuerza.

La historia es nuestra y la hacen los pueblos.

Trabajadores de mi patria: Quiero agradecerles la lealtad que siempre tuvieron, la confianza que depositaron en un hombre que sólo fue intérprete de grandes anhelos de justicia, que empeñó su palabra en que respetaría la Constitución y la ley y así lo hizo.

En este momento definitivo, el último en que yo pueda dirigirme a ustedes, quiero que aprovechen la lección. El capital foráneo, el imperialismo, unido a la reacción, creó el clima para que las Fuerzas Armadas rompieran su tradición, la que les enseñara Schneider y que reafirmara el comandante Araya, víctimas del mismo sector social que hoy estará en sus casas, esperando con mano ajena reconquistar el poder para seguir defendiendo sus granjerías y sus privilegios.

Me dirijo, sobre todo, a la modesta mujer de nuestra tierra, a la campesina que creyó en nosotros; a la obrera que trabajó más, a la madre que supo de nuestra preocupación por los niños.

Me dirijo a los profesionales de la patria, a los profesionales patriotas, a los que hace días estuvieron trabajando contra la sedición auspiciada por los Colegios profesionales, colegios de clase para defender también las ventajas que una sociedad capitalista da a unos pocos.

Me dirijo a la juventud, a aquellos que cantaron, entregaron su alegría y su espíritu de lucha.

Me dirijo al hombre de Chile, al obrero, al campesino, al intelectual, a aquellos que serán perseguidos... porque en nuestro país el fascismo ya estuvo hace muchas horas presente en los atentados terroristas, volando los puentes, cortando la línea férrea, destruyendo los oleoductos y los gasoductos, frente al silencio de los que tenían la obligación de proceder: estaban comprometidos.

La historia los juzgará.

Seguramente Radio Magallanes será acallada y el metal tranquilo de mi voz no llegará a ustedes. No importa, lo seguirán oyendo. Siempre estaré junto a ustedes. Por lo menos, mi recuerdo será el de un hombre digno que fue leal a la lealtad de los trabajadores. El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.

Trabajadores de mi patria: tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo, donde la traición pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre para construir una sociedad mejor.

¡Viva Chile!

¡Viva el pueblo!

¡Vivan los trabajadores!

Estas son mis últimas palabras y tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano. Tengo la certeza de que, por lo menos, habrá una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición.


Salvador Allende


Santiago de Chile, 11.marzo.1973

segunda-feira, 7 de julho de 2008

A MEMÓRIA DOS HOMENS...




A Ignomínia do Esquecimento


Passou, silencioso e despercebido, no dia 1º. deste mês de Julho, o aniversário de nascimento de um cidadão que deveria ser um marco da nossa actual sociedade. Este Homem, licenciado em Ciências Sociais e Políticas e em Ciências Etnológicas e Antropológicas, dotado de um carácter, personalidade, tenacidade e destemor, quase inigualáveis para o seu tempo e idade (29 anos), fez frente, de peito aberto, a blindados comandados pelo único indivíduo que, em desespero, se atreveu a tentar defender o anquilosado e indefensável estado novo e o seu último e indeciso ditador.
Refiro-me ao Cidadão Fernando José Salgueiro Maia, nascido a 1 de Julho de 1944 e desaparecido de entre nós a 4 de Abril de 1992.
O País e o mundo conheceram-no como o Capitão do 25 de Abril, do Terreiro do Paço e do Quartel do Carmo. Mas o seu percurso, como militar e cidadão começou muito antes. Apesar de muito jovem, tinha já cumprido duas comissões na guerra colonial, a primeira em Angola, 1968/70 e a segunda na Guiné, 1971/73. Em ambas o seu carácter se manifestou. Ainda em Angola é promovido a Capitão. Sobre o a Guiné, espero que alguém do seu tempo aqui escreva o que se passou. A camaradagem, coragem e abnegação, encontraram aí terreno e espaço para decisões e acções que o fariam sofrer até ao fim dos seus dias, embora com a tranquilidade de espírito de um dever superior cumprido. A sua entrega em sacrifício de alguns, para o bem de muitos, teve aí o seu grande ensaio. Repete-o em 1974, ao arriscar tudo nas suas decisões firmes e em obediência a um compromisso assumido. As suas palavras na parada da EPC em Santarém, na madrugada de 24/25 de Abril de 74 são a expressão definitiva da sua visão e da sua força interior. Assim se dirigem homens e se conquistam comandados: "Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser, vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui."
Com estas palavras se começa a construir, no terreno, o que se desejava e poderia ter sido uma democracia.
Em 25 de Nov. de 1975, dá-nos outro exemplo de disciplina e obediência, ao voltar saír do mesmo local, da mesma forma, mas desta vez às ordens do Presidente da República.
Nem os políticos nem a maioria dos seus pares lhe perdoa a forma de ser, a voluntariedade e a verticalidade. Nesta sequência é transferido para os Açores, só voltando em 1979, para a "honrosa distinção" de comandar o Presídio de Santa Margarida. Só em 1984 voltará à "sua" EPC em Santarém.
Como é da "práxis" nesta espécie de país, somente em 1983 é agraciado com a Grã Cruz da Ordem da Liberdade (de que foi um dos principais mentor e autor). Morre em 1992, aos 48 anos de idade e a 21 dias da comemoração do 18º. aniversário da "sua" Revolução, após dois longos anos de sofrimento, sendo ainda em 1992, mas já a título póstumo, elevado a Grande Oficial da Ordem da Torre e Espada.
Na ausência de efeméride nacional condigna, "para que a memória se não apague", aqui fica a homenagem singela e simples, na pureza da amizade, como ele gostava.
Até sempre Maia.
Jerónimo Sardinha.

A MEMÓRIA DOS HOMENS













Caro Jerónimo


Tu o recordaste, és um cidadão honrado. A sua família e os seus amigos e camaradas mais próximos o recordaram,todos os que conhecemos a coragem - que julgo nunca tertido ou vir a ter de enfrentar um carro de combate -nuncao esqueceremos.

Também nunca o esquecerei, porque conspirei na sua própriacasa para o derrube do regime fascista, em reuniões de que ninguém fala, mas onde estavam as Unidades, ditas tipo A, ou seja, simplesmente as mais fortes da grande área metropolitana de Lisboa, incluindo os pára-quedistas.

Obviamente que os que pouco ou nada fizeram pela liberdade em Portugal, hoje e sempre, tudo farão para esquecer o SALGUEIRO MAIA, como todos os outros que genuinamente deram todo pela causa da Pátria e do POVO ESCRAVO; a quem querem submeter à canga.

Mas mais grave e doloroso é que este apagar da memória é também ENDÓGENO no seio dos capitães de Abril, porque há quem teime a ver na vitória do 25de Novembro a generosidade e a verdade do 25 de Abril, facto que é uma escandalosa mentira.No 25 de Novembro condenaram-se ao banimento jovens honrados e generosos e promoveram-se gentes e mais gentes cheias de raiva, ódio ao 25 de Abril e à mais ténue ideia de democracia e Estado de Direito.

Abraço
andrade da silva
5 Julho 08