
BREVE INTRODUÇÃO
“ Perante tanto ruído, eu, em 1972, Alferes de Artilharia, sem ser génio militar, perante a desorganização da guerra, a falta total de portuguesismo das populações, a desmotivação dos militares, a incompetência de alguns comandantes, a falta de meios: armamento e transportes e a ausência adequada de formação dos militares, nomeadamente dos oficiais, pronunciei-me sobre a derrota militar e política da guerra colonial.
Dou conhecimento desta carta, já que muitos falam do hoje para o ontem, pretendo falar de antanho para hoje, talvez seja estúpido, mas segundo a psicologia não há memórias puras nem fidedignas sobre o passado, são sempre construções com um misto de real, ficção, mais o que se foi acrescentando por ouvir dizer e até sonhar. Contrariamente os documentos produzidos nesse passado retratam o exacto pensamento daqueles momentos. Será que os que tanto falam sobre o passado não escreveram nada na altura? Ou será que alguns cantavam Hossanas a esse passado e agora querem escondê-lo, ou pior branqueá-lo.
NOTA: algumas palavras foram suprimidas, porque apesar de serem a linguagem mais precisa e honesta, continuo a pensar que o são, poderiam ferir sensibilidades, e para não usar a bolinha vermelha, lá vão os pontinhos, percebe-se muito bem o porquê do português vernáculo, claro…
Damba 13 Novembro 72
Caro Pereira ( hoje, coronel de artilharia Custódio Pereira)
Recebi a tua carta e mais uma vez apercebi-me que todos nós andamos a sentir o mesmo. Andamos a sofrer do grande mal que é a frustração, aliás, os meus sentimentos, ideias e pensamentos acerca de toda esta história estão bem patentes na carta que há dias te escrevi, e que por esta altura já devias ter recebido.
Quanto aos golpes de toda esta malta já nada sinto, pois que numa guerra destas, sem história e sem futuro, ou MELHOR SEM OUTRO FUTURO que não seja o FRACASSO ABSOLUTO, parvos são aqueles que cumprem o seu dever e arriscam a vida. Não te metas pois em becos sem saída, manda esta m…. toda para o c…..,pois toda esta gente tem pleno conhecimento de quanto se está a passar, e cada vez mais nos f……
Não sei se sabes que os capitães proveta vão ser promovidos ao respectivo posto, claro que muitos deles por necessidade cá terão de ficar, e lá estaremos nós a alinhar à esquerda dessa nova remessa ……, e, mais uma vez, tudo acontecerá sem que nós carneiros feitos tomemos uma atitude.
Pior que isto são os boatos que já correm acerca dos Majores Provetas, os quais serão recrutados entre os capitães do mesmo fabrico que depois de um estágio na Academia Militar virão como oficiais de Operações, enquanto, os ….. do quadro continuarão a aguentar 4 comissões, como capitães e na melhor das hipóteses lá para a 5º comissão vimos como oficias de operações, mas com o posto de capitão. Não calculo até que ponto será esta p…. verdade, porém depois de quanto tenho observado, nada me admira que tal viesse a acontecer.
Caro Pereira perante tão evidentes factos começo a sentir vergonha de pertencer a esta comunidade que PASSIVAMENTE TUDO ACEITA, só falta que c….. em cima de nós no real e efectivo sentido, pois tudo o resto já fazem sem rodeios.
A propósito da minha promoção ( a tenente) chegou há dias uma nota a referir que tinham enviado o meu processo para a 1º Repartição, claro que fiquei surpreendido, porque vocês fizeram mil e tantos exames médicos, e eu não fiz nenhum, talvez seja o principio do equilíbrio natural das coisas, segundo parece esta p….. até tem algumas leis cientificas que a vai regulando.
Quanto ao fim da nossa comissão….. é de todo conveniente que o teu batalhão procure saber o mesmo, pois que cada um de nós pode ser, que dentro de todo este sistema, pertença a guerras totalmente diferentes.
NOVAMENTE TENHO EM MENTE A EFECTIVAÇÃO DE UMA REUNIÃO COM TODA A MALTA DOS POSTOS SUBALTERNOS, AFIM DE EXPORMOS A QUEM DE DIREITO A NOSSA MISERÁVEL SITUAÇÃO, E EXIRGIRMOS A TOMADA DE MEDIDAS POSITIVAS E IMEDIATAS.
Veremos o que se conseguirá, mas isto não passará de mais um sonho de uma cabeça louca.
Não sei, mas sinto-me à beira do colapso, quando penso em toda esta m…., até parece que dou em louco, pois nunca me senti tão inútil na vida, como aqui e naquele período em que em Vendas Novas, feito burro e animal sem personalidade andei com o parvalhão do A. a pintar paus, p… que o p….., mas foi ele o 1º gajo que deu as dimensões do nosso papel – o de construtores de …… – é de dizer como o outro que p…. de hipótese.
Do
A. da Silva
PS:
Sobre os tristes e lamentáveis episódios, acima referidos que tiveram lugar no fim do nosso tirocínio, com flagrante desrespeito por compromissos assumidos, esclareço que, em 1971, o curso de Artilharia, de que era o seu chefe, recusou-se colectivamente a fazer as provas do pentatlo no final do tirocínio curricular do curso, apesar de todas as ameaças de que nos aconteceria isto e aquilo, segundo, o capitão director do curso que acabou por chegar muito, muito, longe,
Nos idos do 25 de Abril defendi este capitão, quando na unidade o queriam sanear. Defendi-o com base em duas premissas: era estimado pelos militares que comandava, era tecnicamente competente e dedicado, e estes dois factos são para mim determinantes para o bom juízo de um comandante. Nunca os questionei, como aos militares que comandei, como aliás, com toda as pessoas com quem me relaciono ou quem me relacionei quanto ao seu partido, ideologia ou religião, por mais intima que tenha sido essa relação, como nunca prejudiquei ou beneficiei alguém por qualquer daquelas circunstâncias.
“ Perante tanto ruído, eu, em 1972, Alferes de Artilharia, sem ser génio militar, perante a desorganização da guerra, a falta total de portuguesismo das populações, a desmotivação dos militares, a incompetência de alguns comandantes, a falta de meios: armamento e transportes e a ausência adequada de formação dos militares, nomeadamente dos oficiais, pronunciei-me sobre a derrota militar e política da guerra colonial.
Dou conhecimento desta carta, já que muitos falam do hoje para o ontem, pretendo falar de antanho para hoje, talvez seja estúpido, mas segundo a psicologia não há memórias puras nem fidedignas sobre o passado, são sempre construções com um misto de real, ficção, mais o que se foi acrescentando por ouvir dizer e até sonhar. Contrariamente os documentos produzidos nesse passado retratam o exacto pensamento daqueles momentos. Será que os que tanto falam sobre o passado não escreveram nada na altura? Ou será que alguns cantavam Hossanas a esse passado e agora querem escondê-lo, ou pior branqueá-lo.
NOTA: algumas palavras foram suprimidas, porque apesar de serem a linguagem mais precisa e honesta, continuo a pensar que o são, poderiam ferir sensibilidades, e para não usar a bolinha vermelha, lá vão os pontinhos, percebe-se muito bem o porquê do português vernáculo, claro…
Damba 13 Novembro 72
Caro Pereira ( hoje, coronel de artilharia Custódio Pereira)
Recebi a tua carta e mais uma vez apercebi-me que todos nós andamos a sentir o mesmo. Andamos a sofrer do grande mal que é a frustração, aliás, os meus sentimentos, ideias e pensamentos acerca de toda esta história estão bem patentes na carta que há dias te escrevi, e que por esta altura já devias ter recebido.
Quanto aos golpes de toda esta malta já nada sinto, pois que numa guerra destas, sem história e sem futuro, ou MELHOR SEM OUTRO FUTURO que não seja o FRACASSO ABSOLUTO, parvos são aqueles que cumprem o seu dever e arriscam a vida. Não te metas pois em becos sem saída, manda esta m…. toda para o c…..,pois toda esta gente tem pleno conhecimento de quanto se está a passar, e cada vez mais nos f……
Não sei se sabes que os capitães proveta vão ser promovidos ao respectivo posto, claro que muitos deles por necessidade cá terão de ficar, e lá estaremos nós a alinhar à esquerda dessa nova remessa ……, e, mais uma vez, tudo acontecerá sem que nós carneiros feitos tomemos uma atitude.
Pior que isto são os boatos que já correm acerca dos Majores Provetas, os quais serão recrutados entre os capitães do mesmo fabrico que depois de um estágio na Academia Militar virão como oficiais de Operações, enquanto, os ….. do quadro continuarão a aguentar 4 comissões, como capitães e na melhor das hipóteses lá para a 5º comissão vimos como oficias de operações, mas com o posto de capitão. Não calculo até que ponto será esta p…. verdade, porém depois de quanto tenho observado, nada me admira que tal viesse a acontecer.
Caro Pereira perante tão evidentes factos começo a sentir vergonha de pertencer a esta comunidade que PASSIVAMENTE TUDO ACEITA, só falta que c….. em cima de nós no real e efectivo sentido, pois tudo o resto já fazem sem rodeios.
A propósito da minha promoção ( a tenente) chegou há dias uma nota a referir que tinham enviado o meu processo para a 1º Repartição, claro que fiquei surpreendido, porque vocês fizeram mil e tantos exames médicos, e eu não fiz nenhum, talvez seja o principio do equilíbrio natural das coisas, segundo parece esta p….. até tem algumas leis cientificas que a vai regulando.
Quanto ao fim da nossa comissão….. é de todo conveniente que o teu batalhão procure saber o mesmo, pois que cada um de nós pode ser, que dentro de todo este sistema, pertença a guerras totalmente diferentes.
NOVAMENTE TENHO EM MENTE A EFECTIVAÇÃO DE UMA REUNIÃO COM TODA A MALTA DOS POSTOS SUBALTERNOS, AFIM DE EXPORMOS A QUEM DE DIREITO A NOSSA MISERÁVEL SITUAÇÃO, E EXIRGIRMOS A TOMADA DE MEDIDAS POSITIVAS E IMEDIATAS.
Veremos o que se conseguirá, mas isto não passará de mais um sonho de uma cabeça louca.
Não sei, mas sinto-me à beira do colapso, quando penso em toda esta m…., até parece que dou em louco, pois nunca me senti tão inútil na vida, como aqui e naquele período em que em Vendas Novas, feito burro e animal sem personalidade andei com o parvalhão do A. a pintar paus, p… que o p….., mas foi ele o 1º gajo que deu as dimensões do nosso papel – o de construtores de …… – é de dizer como o outro que p…. de hipótese.
Do
A. da Silva
PS:
Sobre os tristes e lamentáveis episódios, acima referidos que tiveram lugar no fim do nosso tirocínio, com flagrante desrespeito por compromissos assumidos, esclareço que, em 1971, o curso de Artilharia, de que era o seu chefe, recusou-se colectivamente a fazer as provas do pentatlo no final do tirocínio curricular do curso, apesar de todas as ameaças de que nos aconteceria isto e aquilo, segundo, o capitão director do curso que acabou por chegar muito, muito, longe,
Nos idos do 25 de Abril defendi este capitão, quando na unidade o queriam sanear. Defendi-o com base em duas premissas: era estimado pelos militares que comandava, era tecnicamente competente e dedicado, e estes dois factos são para mim determinantes para o bom juízo de um comandante. Nunca os questionei, como aos militares que comandei, como aliás, com toda as pessoas com quem me relaciono ou quem me relacionei quanto ao seu partido, ideologia ou religião, por mais intima que tenha sido essa relação, como nunca prejudiquei ou beneficiei alguém por qualquer daquelas circunstâncias.





