quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009



Misericórdia


Espera silenciosa;

Procura e reencontro;

Comunhão.


Realidade criadora,

Realização.


Espírito vivificante

Fusão.



Filipe Papança


EUTANÁSIA E A PAIXÃO PELA DOR ALHEIA


Sou uma das pessoas que menos compreende a morte, de facto prossigo a estupidez, ainda por cima impossível, da eternidade terrena. Mas se não compreendo a morte muito menos a degradação e o sofrimento atroz. Sendo um defensor da eternidade na terra desde que se tenha um pouco de pão, muito amor e muito sexo, não entendo o sadismo de alguns, o egoísmo de muitos e o estado psicótico de poucos, no seio da comunidade dos que querem manter viva gente morta, ou em grande sofrimento. Não posso entender tanta insensibilidade.

Penso que as Igrejas defendendo o principio que tudo acontece segundo um plano de Deus, quer a alegria, quer a dor, não podem defender outra posição que não seja o sofrimento que regenera a alma e dá o céu. Não acredito nestas “ verdades reveladas”, mas compreendo, e compreendo até que a Igreja coloque a eutanásia na lista dos pecados mortais, que Deus saberá perdoar ou não, mas tudo o que no seu comportamento vá para além disto, e queira impor a sua regra, de mera crença, aos cidadãos que pensam de outro modo e sofrem é uma acto totalitário, inaceitável.

Não compreendo que os que não têm profissões de fé tão rígidas, ou não as praticam com tanta devoção nos demais domínios da vida, queiram obrigar filhos desamados a nascerem, para depois sofrerem, ou que pessoas em grande sofrimento continuem a sofrer, só para satisfazerem a sua crença, ou mesmo o seu sadismo, isto é, o gostarem de ver as pessoas a contorcerem-se, como gostam de ver árabes ou negros a serem vitimados por guerras, quer por racismo, quer porque todas essas tragédias valorizam a sua segurança pessoal e o seu conforto, ou ainda, como não têm um cordeiro pascal humano para oferecerem aos seus deuses, servem-se destes míseros sofredores para esse efeito e, assim, acalmarem as iras dos deuses por causa da totalidade dos seus pecados mortais, a gula, a luxúria, a inveja, a avareza, a vingança, a soberba . Quando assima contece, estes comportamentos são pura e simplesmente intoleráveis.

Defendo a eutanásia, como um acto de amor e libertador, para evitar a degradação e o sofrimento máximos, porque nunca nenhum ser humano deveria passar. Nenhum Deus quer que alguém sofra tanto. Só gente desvairada e sem sentimentos pode falar em nome de um Deus tirano. Muitos homens são tiranos, mas os Deuses, não criados pelos homens, só podem ser bondosos, e saberão compreender que quem ama o seu semelhante, como a si mesmo e quer que em determinado momento o seu ente querido parta, não para dispor dessa vida como se fosse um Deus, mas sim, para o apoiar no máximo que pode no fim doloroso e triste da sua passagem, por este nosso querido e belo planeta azul. Neste acto só pode existir humanismo e amor.

Só os bárbaros defensores do sofrimento e da tortura podem considerar a eutanásia como uma execução, porque aquela é praticada com muita dor e sofrimento por quem ama aquele que vai partir. Todavia compreendo e considero um acto da maior coragem e nobreza que, de acordo com as suas convicções, os que crêem suportem a tragédia da dor até ao último átomo. Merecem o meu respeito e o meu amor, não o merecem, quando querem impor essa conduta aos outro como a moral e juridicamente correcta, quando a sua posição releva de uma respeitável crença, que como tal é uma norma da sociedade dos crentes e não dos outros.

Obviamente que defendo a eutanásia, como defendo a interrupção da gravidez em casos muito extremos, e que nunca se possam confundir com execuções. Para mim, até, a interrupção da gravidez deve ter um carácter de maior excepcionalidade que a eutanásia, porque se pode evitar muito mais facilmente uma gravidez indesejada, do que uma doença terminal.

Obviamente que a eutanásia deve ser juridicamente consagrada com todos os cuidados para que nunca se possa constituir como um instrumento de execução nas mãos de governos desrespeitadores dos direitos humanos, ou excessivamente economicistas, ou nas mãos de familiares criminosos . É evidente também que falo, do modo que o faço, no contexto de sociedades democráticas, civilizadas, do século XXI e respeitadoras dos direitos humanos, só nestas sociedades faz sentir falar dos problemas sociais e humanos, nas outras reina o crime e o arbítrio.

andrade da silva 4 Fev 09

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

01 - LIBERDADE E CIDADANIA * Anteprojecto

Aceitando o convite do nosso comum Amigo Jerónimo Sardinha para integrar o colectivo do espaço «Liberdade e Cidadania», creio bem não poder ser-me negado o direito de apresentar um anteprojecto que pondere as orientações que se me afiguram determinantes para definir o objectivo deste mesmo espaço.

Com a criação do espaço «Liberdade e Cidadania», Jerónimo Sardinha assumiu, publicamente, a recusa ao modus operandi do poder político instalado e o direito de contestá-lo sob as normas constitucionais vigentes. A este seu projecto de cidadania em liberdade aderiram os seus Amigos identificados no blog «Liberdade e Cidadania».

Considerando que contestar avulsamente não será forma adequada de intervir na res publica, sugiro um levantamento do estado da nação e um subsequente programa de acção, através do qual seja possível analisar criticamente todas as situações. Por analisar criticamente entenda-se relevar o que for considerado inadequado e sugerir alternativas.

Outrossim sugiro a criação de um corpo redactorial que se submeta à orientação deste espaço e se ocupe da gestão de «Liberdade e Cidadania» contibuindo com a sua colaboração e com qualquer outra que considere adequada aos fins propostos.

Mãos à obra, que se faz tarde!

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho

MUNDO LOUCO.


O Mundo está louco, quando dizem que os governos estão a nacionalizar os bancos, e o que está acontecer são medidas provisórias para salvar os investimentos dos ricos, com o recurso aos dinheiros públicos. Nada disto é nacionalização, mas sim é a completa e total PRIVATIZAÇÃO DO ESTADO.

Como Fridman doutrina é nas ocasiões de crise que os governantes devem aproveitar para aplicar as mais graves medidas de choque que é o que vem aí: despedimentos em massa para tornar os salários mais baixos e privatizar o ESTADO.

Os desempregados tornam-se os párias, os excluídos sociais, e os trabalhadores são convertidos em escravos ou servos para manterem os seus postos de trabalho.

Só a cegueira das vitimas directas e indirectas, a cumplicidade, ou a total alienação podem impossibilitar alguém de ver que estamos a ser duplamente vendidos em hasta pública, por um lado, estamos a ser todos hipotecados ao estrangeiro, um dia quando tivermos de pagar o défice da balança de pagamentos, seremos convertidos em escravos do FMI e, ou do Banco Mundial e, por outro lado, estamos a contribuir, cada um de nós, com milhares de euros para manter ao fortunas fraudulentas dos especuladores.

Mas o que farão as pessoas, quando se virem totalmente espoliadas? E como vão conter os governos a contestação, mesmo, a revolta popular?

A História diz-nos que mesmo debaixo da mais severa crueldade dos imperadores chineses, desses tempos imemoriais, o povo atingido o grau máximo da imoralidade sempre se revoltou, e se nada muda, nada também faz crer que a luta desesperada dos humilhados e ofendidos tenha tombado desonrosamente no campo da luta social.

Mas o mais grave disto tudo é que o deputado ( actual ou ex) do PS Vítor Ramalho considera que as medidas actuais que o Governo tomou são provisórias, e que se não se mudar de paradigma o povo virá para a rua procurar soluções, só que ele diz que como pessoa de esquerda está cheio de esperança, parece que a sua esperança assenta na continuação da actual política que conduziu a este estado de coisas, então, como ficamos?

Bem, mas o Sr. Vítor Ramalho, entretanto, como novo Presidente do Conselho de Administração da Fundação do INATEL, pode ser que mesmo com o governo neo-liberal do Sr. Eng. Sócrates, consiga através do turismo social sénior salvar o país, o que em última instância pode explicar a nomeação providencial pelo governo daquele Sr. para aquele cargo. Como sócio do INATEL vou ver o que, por lá, se vai passar.

Asilva
PS: Grandes defensores deste sistema estiveram no programa prós e contras de hoje, dia 2fev 09, da RTP1, para dizerem que os jornais não devem denunciar os actos corruptos, que envolvam governantes, porque por este caminho iremos parar ao fascismo, com tanta suspeição só irão para a política os piores, dix o Sr.Miguel Júdice, mas será que já lá não estão esses mesmos, pelas razões que o impoluto democrata Sr.Júdice quer calar?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

de
Il est doux, il est beau de mourir pour la patrie
Horace

























Pátria


Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro
Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exatidão
Dum longo relatório irrecusável


E pelos rostos iguais ao sol e ao vento


E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas


— Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro


Eu minha vida daria
E vivo neste tormento



Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 1 de fevereiro de 2009

DOMINGO À TARDE





Alguém disse:


Trabalha, como se não precisasses de dinheiro.
Ama, como se nunca ninguém te tivesse feito sofrer.
Dança, como se ninguém estivesse a olhar.
Canta, como se ninguém estivesse a ouvir.
Vive, como se o paraíso, fosse o teu nicho na Terra.



( tradução livre de um poema anónimo, na língua de Shakespeare)

O FASCISMO E A CARNE PARA CANHÃO


Ainda há gente que contra toda a evidência e verdade, sem vergonha e sem qualquer rebate de consciência, defende o regime fascista ( nunca julgado, hipótese que o General Fabião aventou, mas não agendou) e insiste que era possível ganhar a guerra colonial, só que nunca disseram como, ou foram capazes de o fazer em 13 anos, e pior escondem um dos piores crimes daquele regime, o completo abandono dos cidadãos feridos em combate, os com doenças mentais e as suas famílias.

Como já aqui dei noticia, em1972, num aerograma escrito da Damba/Angola para um camarada do meu curso, dava notícia da minha frustração e do meu julgamento, quanto ao facto de nos considerarem carne par canhão.

Só que naquela altura falava da factualidade da guerra, isto é, considerava que do ponto de vista da condução da guerra, da conquista das populações e da desmotivação dos militares a guerra estava perdida, mas não conhecia algo de muito grave que só agora, numa conferência realizada na Associação de Deficientes das Forças Armada ( ADFA), em que esteve presente o Sr. General Loureiro dos Santos soube, ou seja, o regime fascista na fase inicial da sua implantação revogou toda a legislação que protegia os direitos dos mutilados da I guerra, o código do inválido, retirando-lhes o estatuto simbólico de beneméritos da nação e um conjunto de protecções sociais e económicas de que gozavam, admitindo-se na própria lei que muitos daqueles ex-combatentes seriam arrastados para a indigência e pobreza, casos em que se previa a sua clausura forçada em asilos, e adiantava-se que o estado pagaria os funerais dos extremamente pobres.

De um modo idêntico o Estado Novo procedeu, apesar das condecorações aos chamados heróis da Pátria, com os mutilados da guerra de África, escondendo-os nos hospitais.

O país não podia conhecer a realidade cruel do que acontecia em África, e, assim, também se evitava que o principio dos vasos comunicantes entre militares combatentes e mutilados funcionasse. Todavia apesar de todos os estratagemas do regime fascista, alguma coisa se ia sabendo, e hoje ao saber de toda a maldade legislativa daquele regime contra os mutilados de guerra, ainda sinto, se é que isso é possível, uma maior honra e alegria por ter participado na luta revolucionária, embora traída por bastantes dos que fizeram o 25 de Abril1974.

Quanto mais sei do regime fascista e da recuperação de personagens desse regime e dos seus métodos de acção, como o do banimento cívico dos cidadãos críticos, que desde o 25 de Novembro 75 se tem vindo a operar, melhor compreendo que o regime do 24 de Abril era fascista, e que o 25 de Novembro 75 não foi e nunca quis ser a correcção de alguns erros do 25 de Abril, mas sim a iniciação de um regime formalmente democrático, mas que mantivesse os principais quistos do fascismo: a intolerância, o autoritarismo, o oportunismo, o amiguismo, a traficância de influências e, tudo isto, encontrou adequado acolhimento nos sucessivos governos e outras organizações que sob a bandeira do 25 de Abril continuaram e continuam a perseguição e o banimento dos que, de um modo genuíno e DESINTERESSADO, isto é, sem qualquer beneficio material, social ou politico, serviram as classes mais oprimidas de Portugal.


No fascismo fria, cruel e sistematicamente destruiu-se o código dos inválidos criado na 1ª República, promulgaram-se em1936 leis com efeitos retroactivos para ressarcir verbas de pensões atribuídas aos militares combatentes, esqueceu-se durante muito tempo os militares que ficaram feridos na guerra de África e dos que lá morreram, deixando por lá milhares de mortos, e só em 1973 se promulga legislação que contempla a situação dos que ficaram com deficiência, mas sem nunca se preocupar com a sua reabilitação e reintegração social, o que só vem a acontecer depois do 25 de Abril, com o DL43/76, em que o Estado consente fazer este decreto em parceria com a ADFA.

Disse o Sr. General Loureiro dos Santos, naquela palestra, que num regime Democrático seria inaceitável tratar os militares, sobretudo os feridos e as famílias dos que morreram como no regime fascista, julgo que é um principio intocável e válido para todos os cidadãos. Quando o estado tratar a totalidade ou parte dos seus cidadãos como no regime fascista, será pelo menos moralmente contraditório chamar-se de democrático.

Seja como for no regime democrático actual continua a esquecer-se muito os militares e as suas famílias, não falarei tanto no plano económico, só que aos familiares dos militares mortos, pais, mulheres e filhos e mesmo dos feridos não interessa só o cheque que, por vezes, também não chega, mas também que se cuide das suas almas, do seu mundo intra-psiquico, e, aqui, as dificuldades são imensas. Se, por exemplo, pela conjugação excepcional de boas vontades se conseguiu apoiar a família do soldado Ribeirinho morto no atentado de Bali, já em relação a outros mortos, apesar dos funerais de estado, tudo foi muito mais difícil a nível do necessário apoio psicológico e mesmo quanto às despesas dos artefactos que imortalizam a memória dos nossos heróis. Enfim mais outras tristes histórias existem, o que é muito grave face ao tão baixo número de baixas, tendencialmente zero, só que, como dizia o general Douglas Macarthur, para quem morre e os seus familiares a perda é de 100%.

Pessoalmente não faço qualquer vaticínio de quão mal se pode tratar os cidadãos em geral e os militares em particular sem que nos tempos que passam e com o autoritarismo e mediocridade que reinam pela Europa, a começar por quem é quem na Comissão Europeia, se ponha em causa se o regime é democrático ou não.

Na Europa já há muito que se abandonou as traves mestras, a marca de água, da social-democracia. Os tempos de hoje até que os povos se levantem, até um novo Maio 68, viveremos numa democracia cada vez mais apoucada, corrupta, degradada, servida por gente que não sabe ser tolerante e perceber que a democracia é o regime e o estado social e de alma que não exclui a cidadania e o pensamento critico, o que, infelizmente, é o que mais se pratica em Portugal, até quando?

Mas porque não calo a minha maldita voz, entre tantos ámen, porque não me calo, se nada tenho para além do que todos os cidadãos anónimos devem ter, auto-consciência da minha humanidade e dos direitos e deveres que essa circunstância impõe, mas se imensos dos demais e honrados cidadãos se calam e consentem, porque resistem alguns, sobretudo eu se nada tenho da força ( digo-o, com verdade e sinceridade) da Marília e de outras heroínas de Portugal, porque lhes anima uma esperança que não me habita?

Os meus olhos vêm um país de “cangados” e uma elite sem qualquer luminosidade. Estas elites são meras sombras cadavéricas do passado fascista que ainda, em muitas circunstâncias, guia Portugal. (Talvez haja algum pessimismo nesta noite de sábado. Estes Invernos cruzados não ajudam nada ao Madeirense que sou, filho de um minhoto de princípios do antes quebrar que torcer, e de uma mãe que no fulgor dos seus anos, nunca deixou que pata alguma a espezinhasse. Maldição a minha de que muito me orgulho, mas… )

PORTUGAL.


andrade da silva