
Ainda há gente que contra toda a evidência e verdade, sem vergonha e sem qualquer rebate de consciência, defende o regime fascista ( nunca julgado, hipótese que o General Fabião aventou, mas não agendou) e insiste que era possível ganhar a guerra colonial, só que nunca disseram como, ou foram capazes de o fazer em 13 anos, e pior escondem um dos piores crimes daquele regime, o completo abandono dos cidadãos feridos em combate, os com doenças mentais e as suas famílias.
Como já aqui dei noticia, em1972, num aerograma escrito da Damba/Angola para um camarada do meu curso, dava notícia da minha frustração e do meu julgamento, quanto ao facto de nos considerarem carne par canhão.
Só que naquela altura falava da factualidade da guerra, isto é, considerava que do ponto de vista da condução da guerra, da conquista das populações e da desmotivação dos militares a guerra estava perdida, mas não conhecia algo de muito grave que só agora, numa conferência realizada na Associação de Deficientes das Forças Armada ( ADFA), em que esteve presente o Sr. General Loureiro dos Santos soube, ou seja, o regime fascista na fase inicial da sua implantação revogou toda a legislação que protegia os direitos dos mutilados da I guerra, o código do inválido, retirando-lhes o estatuto simbólico de beneméritos da nação e um conjunto de protecções sociais e económicas de que gozavam, admitindo-se na própria lei que muitos daqueles ex-combatentes seriam arrastados para a indigência e pobreza, casos em que se previa a sua clausura forçada em asilos, e adiantava-se que o estado pagaria os funerais dos extremamente pobres.
De um modo idêntico o Estado Novo procedeu, apesar das condecorações aos chamados heróis da Pátria, com os mutilados da guerra de África, escondendo-os nos hospitais.
O país não podia conhecer a realidade cruel do que acontecia em África, e, assim, também se evitava que o principio dos vasos comunicantes entre militares combatentes e mutilados funcionasse. Todavia apesar de todos os estratagemas do regime fascista, alguma coisa se ia sabendo, e hoje ao saber de toda a maldade legislativa daquele regime contra os mutilados de guerra, ainda sinto, se é que isso é possível, uma maior honra e alegria por ter participado na luta revolucionária, embora traída por bastantes dos que fizeram o 25 de Abril1974.
Quanto mais sei do regime fascista e da recuperação de personagens desse regime e dos seus métodos de acção, como o do banimento cívico dos cidadãos críticos, que desde o 25 de Novembro 75 se tem vindo a operar, melhor compreendo que o regime do 24 de Abril era fascista, e que o 25 de Novembro 75 não foi e nunca quis ser a correcção de alguns erros do 25 de Abril, mas sim a iniciação de um regime formalmente democrático, mas que mantivesse os principais quistos do fascismo: a intolerância, o autoritarismo, o oportunismo, o amiguismo, a traficância de influências e, tudo isto, encontrou adequado acolhimento nos sucessivos governos e outras organizações que sob a bandeira do 25 de Abril continuaram e continuam a perseguição e o banimento dos que, de um modo genuíno e DESINTERESSADO, isto é, sem qualquer beneficio material, social ou politico, serviram as classes mais oprimidas de Portugal.
No fascismo fria, cruel e sistematicamente destruiu-se o código dos inválidos criado na 1ª República, promulgaram-se em1936 leis com efeitos retroactivos para ressarcir verbas de pensões atribuídas aos militares combatentes, esqueceu-se durante muito tempo os militares que ficaram feridos na guerra de África e dos que lá morreram, deixando por lá milhares de mortos, e só em 1973 se promulga legislação que contempla a situação dos que ficaram com deficiência, mas sem nunca se preocupar com a sua reabilitação e reintegração social, o que só vem a acontecer depois do 25 de Abril, com o DL43/76, em que o Estado consente fazer este decreto em parceria com a ADFA.
Disse o Sr. General Loureiro dos Santos, naquela palestra, que num regime Democrático seria inaceitável tratar os militares, sobretudo os feridos e as famílias dos que morreram como no regime fascista, julgo que é um principio intocável e válido para todos os cidadãos. Quando o estado tratar a totalidade ou parte dos seus cidadãos como no regime fascista, será pelo menos moralmente contraditório chamar-se de democrático.
Seja como for no regime democrático actual continua a esquecer-se muito os militares e as suas famílias, não falarei tanto no plano económico, só que aos familiares dos militares mortos, pais, mulheres e filhos e mesmo dos feridos não interessa só o cheque que, por vezes, também não chega, mas também que se cuide das suas almas, do seu mundo intra-psiquico, e, aqui, as dificuldades são imensas. Se, por exemplo, pela conjugação excepcional de boas vontades se conseguiu apoiar a família do soldado Ribeirinho morto no atentado de Bali, já em relação a outros mortos, apesar dos funerais de estado, tudo foi muito mais difícil a nível do necessário apoio psicológico e mesmo quanto às despesas dos artefactos que imortalizam a memória dos nossos heróis. Enfim mais outras tristes histórias existem, o que é muito grave face ao tão baixo número de baixas, tendencialmente zero, só que, como dizia o general Douglas Macarthur, para quem morre e os seus familiares a perda é de 100%.
Pessoalmente não faço qualquer vaticínio de quão mal se pode tratar os cidadãos em geral e os militares em particular sem que nos tempos que passam e com o autoritarismo e mediocridade que reinam pela Europa, a começar por quem é quem na Comissão Europeia, se ponha em causa se o regime é democrático ou não.
Na Europa já há muito que se abandonou as traves mestras, a marca de água, da social-democracia. Os tempos de hoje até que os povos se levantem, até um novo Maio 68, viveremos numa democracia cada vez mais apoucada, corrupta, degradada, servida por gente que não sabe ser tolerante e perceber que a democracia é o regime e o estado social e de alma que não exclui a cidadania e o pensamento critico, o que, infelizmente, é o que mais se pratica em Portugal, até quando?
Mas porque não calo a minha maldita voz, entre tantos ámen, porque não me calo, se nada tenho para além do que todos os cidadãos anónimos devem ter, auto-consciência da minha humanidade e dos direitos e deveres que essa circunstância impõe, mas se imensos dos demais e honrados cidadãos se calam e consentem, porque resistem alguns, sobretudo eu se nada tenho da força ( digo-o, com verdade e sinceridade) da Marília e de outras heroínas de Portugal, porque lhes anima uma esperança que não me habita?
Os meus olhos vêm um país de “cangados” e uma elite sem qualquer luminosidade. Estas elites são meras sombras cadavéricas do passado fascista que ainda, em muitas circunstâncias, guia Portugal. (Talvez haja algum pessimismo nesta noite de sábado. Estes Invernos cruzados não ajudam nada ao Madeirense que sou, filho de um minhoto de princípios do antes quebrar que torcer, e de uma mãe que no fulgor dos seus anos, nunca deixou que pata alguma a espezinhasse. Maldição a minha de que muito me orgulho, mas… )
PORTUGAL.
andrade da silva