
O - bolinha vermelha
“Penso nos meus camaradas Major Passos Ramos e Pereira da Silva que morreram nas tristes aventuras do Sr. General Spínola, e que queriam o 25 de Abril. Também denunciavam vigorosamente algumas vigarices, o que sem nunca os ter lido farei mais tarde.
Não posso também deixar de pensar nas suas famílias e na alferes Passos Ramos sobrinha do meu camarada e filha do general Passos Ramos, que muito estimei, considerei e considero por ter sido uma psicóloga disponível que andou pelas terras da Bósnia.
Hoje já com muitos anos rendo a minha homenagem à generosidade dos jovens de todos os tempos, especialmente aos jovens de vinte e poucos anos que acabam os seus cursos, como é o caso do meu filho, ou os que serviram as Forças Armadas durante 6, 9 anos com muita dedicação e depois têm pela frente um país em crise, sem empregos. REVOLTNTE! 25 DE ABRIL TRAÍDO!” ....
O Jovem alferes que era sentia o maior prazer por ser o comandante, e toda a honra, e orgulho do mundo, porque me considerava competente. Tinha a vaidade de quem pensa que sabe bem o que faz, mas tinha a humildade que sempre me caracterizou, e que me levava a considerar que o mais importante no meu comando sempre foi a camaradagem e, o modo rigoroso de tratar os meus subordinados, associado à maior amizade e consideração por eles.
Sempre fui amigo dos que comandei, e sempre lhes falei claro, garantindo a defesa dos direitos de todos, mas nunca esquecendo os deveres que cada um tinha de cumprir, e quem não quisesse ser cooperador e violasse o pacto da relação harmoniosa seria sancionado, e perante a violação dos deveres não haveria nenhuma desculpa, encobrimento ou cumplicidade com os abusos de poder. Sempre foi assim.
Nesta companhia de cerca de 200 homens, 50% de continentais e 50% de cabo-verdianos, havia entre todos um comportamento de verdadeira camaradagem. Todavia quando tive de interrogar um negro acusado de ser terrorista, os soldados cabo-verdianos rondaram o gabinete, não sei, hoje, se como manifestação de rejúbilo ou de crítica e vigilância ao nosso comportamento.
Este suposto terrorista era acusado de ser da FNLA, foi-nos entregue pela população e era acusado de ter esquartejado uma adolescente à catanata, comportamento criminoso contra a população que parece que era a marca-de-água deste movimento de Holden Roberto. Comportamento, este, terrorista e criminoso. De facto odiei este suposto “turra” e irracionalmente aceitei, como boa a informação da população.
Toda esta convicção também tornara-se mais forte, pelo facto de ter estado na sanzala Banzatema, onde, as coisas se passaram, e tive de jantar à luz de uma vela na cubata do soba. A ementa foi fuba, frango com molho de soja e vinho de palma. De tudo isto só gostava do frango, o vinho de palma era um horror e a fuba só me colava no céu-da-boca. Acompanhava-me um furriel que comia com tanta à vontade como os negros. Ia ficar por lá. Neste aperto só me lembrava de uma história que o meu pai me contava. Tinha ido, em Macau, na década de 50, a uma festa chinesa, e como foi considerado a pessoa mais importante teve de se bater com a cabeça do pato que constituiu o repasto.
O suposto terrorista foi interrogado mas não disse nada, como era minha convicção de que ele era o assassino forcei-lhe a reposta, obrigando-o a fazer exercícios físicos. Todavia e não concordando muito não actuei contra um alferes que o agrediu.
Nesta unidade o sargento da companhia que miseravelmente depois do 25 de Abril me criticou por ter participado neste acto de libertação, e ostensivamente me deixou de falar propus-me que metesse o homem num jeep, depois o mandasse sair e o assassinasse pelas costas, alegando que ele estava a fugir, o que, segundo o mesmo, seria a prática de outros capitães. Recusei esta alternativa, e por causa do prisioneiro recebi a visita do oficial de operações do batalhão, tal era a “fome” de resultados.
Este suposto “ turra” depois foi entregue a outra companhia, onde, se dizia que se torturavam os prisioneiros com choques eléctricos nos testículos. Enfim quase todos, de um modo ou de outro, nem sempre fizemos tudo bem, mas, sem querer adiantar qualquer justificação, sempre direi que fazer exercícios físicos, quando não se fazia bem as coisas, era uma prática corrente no Exército até com tabelas negociadas democraticamente, a que também como comandante ficava sujeito. Por exemplo um minuto de atraso corresponderia a x flexões de braços, y de pernas, e de facto a coisa funcionava. Também apliquei a tabela a mim próprio, como me auto-.puni na Figueira da Foz, quando me atrasei a uma formatura, porque o despertador não tocou, o que nunca antes ou depois tinha, ou voltou a acontecer.
Em Mucaba fiz operações na Serra, muito montanhosa e com uma floresta virgem, onde, o Sol não entrava. Apanhei muita chuva perto da noite e trovoadas de fazer tremer quem estava debaixo de tanta árvore que corria o risco de ser lichado por um raio. Temíamos, ainda, umas formigas que se nos apanhassem as pernas, logo, nos tinhamos de despir, porque elas loucamente corriam para os testículos, diziam, e tendo saído dali nunca mais o confirmei, seja como for, a coisa assustava.
Também muito atrapalhava a espingarda, a famosa G3, era grande, o cano estava sempre a enterrar-se pela terra dentro, o que, tornava a arma inoperacional. Tinha-a de levar em bandoleira, para me poder agarrar e evitar as quedas, o que de facto não consegui de todo, apesar da minha experiência de montanhista. Os militares que comandava já tinham um ano de experiência daquela serra caíam muito menos que eu, mas nunca me deixaram de considerar o seu comandante, o que, em tais circunstâncias, não era coisa fácil.
Nesta operação encontramos vários acampamentos abandonados, e como era hábito nestas operações lá destruímos umas casotas que seriam reconstruídas em menos de nada, e também as plantações de mandioca.
Sem nenhum incidente terminei esta operação ao fim do 3º dia, e pedi ao Batalhão para regressar a quartéis. Recebi ordem do oficial de operações, major Alves de Sousa, para avançar para um morro dos diabos, repentinamente atmosfera se ionizou. Não dei como recebida a mensagem, ficamos ali 24 horas em silêncio rádio que só voltou a funcionar para nos recolherem na tarde do dia seguinte.
Como era fácil mandar das salas de operações subir morros, e descer aos infernos! Mas como era tão difícil dizer isso ao pessoal extenuado por ter andado mais depressa do que a velocidade calculada na sala de operações. Mas alferes não é milagreiro, é só alferes…
Também e a propósito desta operação vi quanto a libido é poderosa. O furriel de transmissões tinha relações sexuais com uma negra de uma sanzala, para o que se deslocava ao cair da noite por uma vereda rodeada de capim. Fazia-o com grande temeridade, por outro motivo não o faria, e mesmo por aquele muito poucos o fariam, mas ele, sim. Venceu todos os medos e não dava atenção nenhuma aos avisos. Estava enfeitiçado, o perigo e a cubata o atraíam para os abismos.
Na operação de que falo, como o comandante da companhia ia para o mato, conhecendo o seu medo e o seu comportamento temerário, mandei-lhe distribuir ração de combate, para participar naquela operação.
O furriel perante este facto teve um ataque de pânico, coisa que nunca tinha visto, e só muitos anos mais tarde vi coisa idêntica com a mãe do meu filho, quando na minha casa, vinda da madeira, desembarcou uma barata. O ataque de pânico por causa da fobia foi de tal ordem que influenciou o meu filho que entrou de imediato a fazer coro com a mãe. Uma coisa incrível.
(Ora queria matar a barata, mas com aquele alvoroço não o conseguia, pelo que perdi o meu auto-controle e dei no meu filho uma das três, e só três palmadas, que lhe apliquei na vida. Esta mal dada, as outras duas a propósito, tendo uma resolvido a questão de querer dormir entre a mãe e o pai, o que as técnicas psicológicas aplicadas não resolveram. Todavia os conhecimentos de psicologia foram importantes para tão baixa contabilidade punitiva)…
Mas graças à sua fobia o nosso furriel lá ia ficando no quartel e às noites ia ter com a sua "pretinha", talvez devesse ser proibido de o fazer, talvez!?... Mas não foi, e talvez assim é que esteja certo, não sabia, continuo a não saber.Os comandantes têm dúvidas, alguns medos e algumas vezes se enganam.
Mas o maior prazer e honra do comandante é servir o País, os seus subordinados e as pessoas da comunidade civil e, isto tudo, senti ao longo da minha vida com grande plenitude, apesar do alto preço que paguei.
Todavia foi uma honra ter comandado tão nobre e valorosa gente que também, por ser humana, tinha defeitos e medos, alguns até muito pequenos, como o das formigas que atacavam os testículos e de outros de que, ainda, falarei
(continua)
andrade da silva 26 Junho 09