sexta-feira, 30 de abril de 2010

O TRABALHO, A SOLIDARIEDADE UNIVERSAL SÃO OS PILARES DA DIGNIDADE HUMANA


Tenho defendido por todos os lugares e sítios, e, sobretudo, no deserto que a grande revolução Nacional, Europeia e Mundial a travar hoje e no Futuro é a da luta diária pela dignidade humana ao longo de toda a vida, desde o nascimento até à morte, num projecto global que cabe aos estados com governos justos, inteligentes e humanos estruturarem, e a todos os cidadãos darem o seu contributo para a sua efectiva e equitativa execução.

A luta pela garantia da dignidade humana desde nascimento até à morte com respeito pelas necessidades especificas de cada ciclo de vida: nascimento, infância, adolescência, jovem adulto/ entrada no mercado de trabalho, vida activa, aposentação, velhice e morte não conhecem os seus inícios ou epílogos nas comemorações do 25 de Abril ou do 1º de Maio, é diária, de todos os segundos, como neste cantinho, em que ninguém nos ouve, procuramos fazer. Todavia seria de uma inoportunidade grave negar o valor efectivo e simbólico das datas comemorativas dos grandes feitos.

Depois de comemorarmos a gloriosa data do 25 de Abril 74, traído por muitos, de um modo soes, em 24 de Setembro 74, 11 de Março 75 e 25 de Novembro de 75, tudo tentativas mais ou menos gravosas, para regressarmos ao Marcelismo, vai Portugal e o Mundo comemorar o DIA do TRABALHADOR e do TRABLHO.

Nesta data seria preciso que os exploradores sentissem um grande peso de consciência pela imoralidade das suas práticas, o que, pela sua vileza não acontecerá, pelo que, perante a falência da consciência moral e de humanidade em milhões de homens, seria fundamental que sentissem um arrepio gelado a percorrer-lhes a espinha, porque solidariamente e de um modo universal os humilhados, numa só voz e com passo certo, diriam e marchariam para um futuro diferente de dignidade e justiça.

O Futuro da dignidade humana exige que o trabalho, a solidariedade e a justiça social sejam as alavancas da realização pessoal e colectiva, mas para que isto aconteça a luta de todos os que se sentem cidadãos não pode resumir-se à reivindicação de mais salários e direitos, tem de ter uma nova dimensão politica integrada num projecto social e politico que congregue na mesma luta universal jovens e idosos na construção da sociedade justa.

É preciso garantir aos jovens e à população activa trabalho que realize as suas pessoas profissional, pessoal e socialmente, aos recém-nascidos que, independentemente das vicissitudes do mercado de trabalho, a todos serão garantidas as condições para desenvolverem as suas capacidades, assegurar a todos os que trabalham protecção no trabalho, a todos os doentes os devidos cuidados, na velhice e na morte todos meios para que a vida, por força de politicas erradas, corruptas e criminosas, nunca se torne numa tortura, e tudo isto tem a ver connosco - a HUMANIDADE que é portuguesa, chinesa, tibetana, negra, árabe, cristã, muçulmana, judaica. Toda a Humanidade no seu sentido cósmico. Ninguém ou nenhum país, imperialista ou não, terá um futuro, conforme às suas expectativas isolado. Isoladamente todos e cada um soçobrarão. Não terão Futuro.

Dia do trabalhador, da luta universal e da esperança de 2010

andrade da silva

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Mafalda a Contestatária


Será à Globalização?

E Hoje que nos Preparam? Querem queijo? T.....


no período do Estado Novo,
o medo apoderava-se dos cidadãos,
conforme o demonstra o seguinte poema

de José Cutileiro:


"É a medo que escrevo. A medo penso.
A medo sofro e empreendo e calo
A medo peso os termos quando falo.
A medo me renego, me convenço.
A medo amo. A medo me pertenço.
A medo repouso no intervalo
De outros medos. A medo é que resvalo
O corpo escrutador, inquieto, tenso.
A medo durmo. A medo acordo. A medo
Invento. A medo passo. A medo fico.
A medo meço o pobre, meço o rico.
A medo guardo confissão, segredo
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo.
Que já me querem cego, surdo, mudo"





quarta-feira, 28 de abril de 2010

GRANDES MALES, REMÉDIOS ESTRAGADOS.


Nestes 36º ano do 25 de Abril é preciso dizer que muitos milhões de portugueses foram atingidos por cinzas de chumbo que lhes taparam os olhares: uns deixaram de ver quase tudo o que acontece, e, outros cristalizaram-se em posições dogmáticas que esquecem que os grandes males atingem aqueles que são realmente povo desfavorecido, de quem já Eça de Queiroz falava, no século XIX, independentemente do partido, em que votam ou não.

Os descamisados, os sem abrigo, milhões de abstencionistas são povo, povo meu irmão, amo-os e queria vê-los de regresso à cidadania. Não os acuso, sofrem e são vítimas destes grandes males.

Muitos portugueses estão surdos à voz do amor e da razão, muitos não ouvem absolutamente nada mais, para além do seu egoísmo e das suas auto-convicções, alimentadas por mentalistas dogmáticos e velhos nas suas mezinhas e nas suas ideias.

A revolução das atitudes exige verdade e luta pela dignidade de todos, sobretudo daqueles que favorecem os seus exploradores. Comportamento que só podem ter por um falso sentimento de segurança que aqueles lhes garantem , contra a insegurança percepcionada em alguns discursos que pela sua desrealização, demagogia e oportunismo afastam, todos quantos da grande abastança desconfiam. Todos têm uma noção bem realista do país que somos.

Não nos será possível criar um paraíso consumista de ricos improdutivos. As benesses do orçamento de estado e os vencimentos imorais de milhões de euros só serão para muito poucos. Vergonha nacional que, apesar, discursos piedosos e pastosos, tanto aqui, como na Suazilândia ou no Afeganistão, são tolerados pelos poderes, porque esses lugares esperam os titulares, em exercício.

Sem verem por entre as nuvens de cinzas, sem ouvirem outras vozes que não a dos donos das almas, os portugueses, consentem que quase tudo aconteça, sem grandes problemas, até um dia de grande e grave impaciência.

Na Madeira a muita água apagou os erros graves do jardinismo, e nem sequer leva a que as pessoas se choquem com as exageradas e fictícias encenações entre o jardinismo e o Socratismo.

Apoiar os Madeirenses é um imperativo ético, alinhar na propaganda do jardinismo é um erro. Se é de louvar a limpeza da cidade do Funchal, não pode ser aceite que os dramas das pessoas fiquem para trás.

Quando o governo regional diz que espera que as pessoas afectadas resolvam os seus problemas com as seguradoras, está adiar para o fim dos tempos as soluções. Os conflitos com as seguradoras nunca têm fim à vista.

É também por toda esta falta de coluna vertebral que aceitamos que um administrador ganhe milhares de euros dia, quando por falta de segurança nos equipamentos dessa empresa – a EDP – morreu por estes dias um adolescente electrocutado em Maceira, e 1500 pessoas, numa freguesia de Oeste, ficaram sem luz, durante o Natal.

Ainda é este estado de alma que afecta toda a Europa que permite que estejamos a ser governados, os países e as instituições, por pessoas pastosas que falam , falam do acessório, e não fazem frente aos especuladores que querem derrubar os países, para executarem o plano da chinização europeia e mundial, no sentido de a todos submeter a uma ditadura Universal dos Banqueiros. Ditadura com o objectivo de nos conduzir a uma sociedade dicotómica de indivíduos muito ricos e uma faixa enorme de andrajosos que para sobreviverem têm de aceitar a supressão de direitos e salários de mera subsistência.

Penso que não é preciso um novo 25 de Abril - o que seria, como, com quem etc esse novo 25 de Abril? - mas é preciso sim, mobilizar todo o povo para as novas tarefas, sem excluir ninguém, nenhuma mulher ou homem do povo e os seus aliados. É preciso combater os inimigos do povo, mas também os que sendo dogmáticos não o amam.

É urgente falar verdade, não pode ter eco na alma do povo a bazófia dos heróis de pacotilha que tendo asfixiado a cidadania que nasceu com o 25 de Abril, porque às ordens da CIA, Kissinger& Carlucci era preciso combater a conquista do poder, em Portugal, pelo PCP, querem, agora, ser arautos de nova aurora. Desconfio dessa gentalha, querem é estar sempre na crista da onda, para quantas as vezes que for necessário traírem o Povo, e defenderem os seus interesses.

Neste Portugal com a existência de colunas vertebrais tão dobráveis, é um muito mau sinal, para milhões de portugueses, a aliança entre PS e PSD, mas também é negativo que o bloco de esquerda, quer porque é mais voluntarista, quer porque goza da simpatia da Comunicação social, nomeadamente do Público e da TVI, e, sobretudo da TVI24, apareça, como o grande protagonista das soluções à esquerda. Não o é, e o povo português, assim, o percepciona, e, este
excesso de narcisismo, pode impedir as convergências de esforços necessárias, para evitar o desastre.

As lutas populares e sociais serão muito importantes, mas se não tiverem por suporte um projecto politico de dignificação da politica e da restauração de uma democracia politica, económica e social avançada, serão actos de resistência fundamentais, mas como todas as lutas anteriormente travadas, servirão para isso mesmo, travar os ímpetos de escravização dos poderosos, mas não lhes tirará as alavancas do poder, que continuarão a comandar, para realizarem os seus desígnios: A CHINIZAÇÂO DO MUNDO, SOB A BATUTA DOS BANQUEIROS E DO CAPITAL FINANCEIRO.

andrade da silva

PS:

A
quem estiver disponível

Continuo a viver a dura experiência que outros viveram e sobreviveram, e tornaram-se grandes pessoas na sua sensibilidade e na defesa de causas justas, como é o caso de uma grande Senhora, a Maria José Gama.

É muito difícil ver a nossa mãe, o nosso pai, outra pessoa condenados a uma vida meramente vegetativa, sem qualquer interacção com o mundo. Deste ponto de vista a vida não é nada de bom, nem justa. Porque penaliza com mais uma doença, quem já tinha uma doença degenerativa e irreversível, Alzheimer, porquê ?....

Também vivo a dificuldade das diásporas. Viver numa continuidade espacial, do Algarve ao Minho, permite a uma pessoa deslocar-se e apoiar outrem, sem movimentar todo o centro da sua vida, de um lado para o outro. Nas descontinuidades territoriais e nas longas distâncias já não é assim , toda a vida se desloca com o individuo.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Golpe militar?




José Gomes Ferreira

(25 de Abril de 1974)

Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada de minha mulher:
- 0 Fafe telefonou de Cascais, ... Lisboa está cercada por tropas…
Refilo, rabugento:
- Hã?
E enrolo-me mais nos lençóis:
- É algum golpe militar reaccionário dos «ultras»... Deixa-me dormir.
Mas qualquer coisa começou a magoar-me a pele com dentes frios, para me dissuadir de adormecer.
E daí a instantes a minha mulher insistiu, baixinho, muito baixinho, com medo de não haver realidade:
-Só funciona o Rádio Clube que pede às pessoas que se conservem em casa.

Golpe militar? Reaccionário, evidentemente. Como se poderia conceber outra coisa?
Levanto-me preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Espreito através da. janela. Pouca gente na rua. Apressada. Tento sintonizar a estação da Emissora Nacional. Nem, um som. Em compensação o telefone vinga-se desesperadamente. Um polvo de pânico desdobra-se pelos fios. A campainha toca cada vez mais forte.
Agora é o Carlos de Oliveira.
-Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa?
Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso.
Ás oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro:
- Aqui, Posto de Comando das forças Armadas. Não queremos derramar a mínima gota de sangue.
De novo o silêncio. Opressivo. De bocejo. Inútil. A olhar para o aparelho.
Custa-me a compreender que se trate de revolução. Falta-lhe o ruído, (onde acontecerá o espectáculo?), o drama, o grito. Que chatice!
A Rosália chama-me, nervosa:
- Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa.
Corro e ouço:
-Aqui o Movimento das Forças Armadas que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal!
Também pede à policia que não resista. Mas Senhor dos Abismos!, trata-se de um golpe contra o fascismo (isto é: salazismo-caetanismo).

São dez e meia e não acredito que os «ultras» não se mexam, não contra-ataquem!
Ou tudo ruirá de podre, sem o brandir de uma bandeira qualquer de, heroísmo, um berro, um suicídio, um brado? Nas ruas (avisto da janela da sala de jantar) as mulheres, correm com sacos de alimentos. A poetisa Maria Amélia Neto telefona-me: «Não resisti e vim para o escritório».
Os revoltosos estão a conferenciar com o ministro do Exército. Na Rádio a canção do Zeca Afonso: Grândola, vila morena ... Terra da fraternidade... 0 povo é quem mais ordena...
Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas. Ainda assisti, ainda assisti à morte deste maldito meio século de opressão imbecil. Ao mesmo tempo nunca vivi horas mais aborrecidas de espera, de frigorífico, ao som de baladas, medíocres, sem lances dramáticos. E não serão assim sempre as verdadeiras revoluções?... interrogo-me. Em silêncio. Sem teatro por fora. Em segredo. Com pantufas.
De súbito, aliás, a Rádio abre-se em notícias. 0 Marcelo está preso no Quartel do Carmo. A polícia e a Guarda Republicana renderam-se. 0 Tomás está cercado noutro quartel qualquer. E, pela primeira vez, aparece o nomeado General Spínola. Novo comunicado das Forças Armadas. 0 Marcelo ter-se-á rendido ao ex-governador da Guiné. (Lembro-me do Salazar: «o poder não pode cair na rua»).
Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo.

A Maria Keil telefonou. 0 Chico, está doente e sozinho em casa. Chora. (Nesta revolução as lágrimas são as nossas balas. Mas eu vi, eu vi, eu vi! ... )
Antes de morrer, a televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo, onde os militares fazem revoluções para lhes restituir a liberdade: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias.
Espectáculo de viril doçura cívica em que os presos... alguns torturados durante dias e noites sem fim.... não pronunciaram uma palavra de ódio ou de paixões de vingança.
E o telefone toca, toca, toca... Juntámos as vozes na mesma alegria. (Só é pena que os mortos não nos possam também telefonar da Morte: o Bento de Jesus Caraça, o Manuel Mendes, o Casais Monteiro, o Redol, o Edmundo de Bettencourt, o Zé Bacelar, a Ofélia e o Bernardo Marques, o Pavia, o Soeiro Pereira Gomes e outros, muitos, tantos... Tenho de me contentar com os vivos. Porque felizmente dos vivos poucos traíram ou desanimaram. Resistimos quase todos de unhas, cravadas, nas palmas das mãos...
De repente, estremeço, aterrado.
Mas isto de transformar o mundo só com vivos não será difícil?
Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos.
Revolução.


José Gomes Ferreira


domingo, 25 de abril de 2010

05 - POEMÁRIO * A recusa



A Rosa dos Ventos - Ponta de Sagres, Portugal


Recuso ser, na noite, a sombra que desenha
a angústia indefinida e fria deste cais.
O que tiver de vir, se mais houver, que venha,
Mostrengo, Adamastor e Fim do Nunca Mais!

O leme se quebrou. Ao vento, as rotas velas
ensaiam os sinais das barcas à deriva.
Que velhas perdições?! Na consciência delas,
assombram predições doendo em carne viva.

Que venham os pinhais gritar o desafio
do tempo por haver que acena o amanhecer
além deste torpor indefinido e frio!

Que venha a tentação sortílega tecer,
com arte e com engenho, o já lendário fio
da espera que germina um novo acontecer!...



José-Augusto de Carvalho
20 de abril de 2010.
Viana * Évora * Portugal
(Apenas com este poema me é possível assinalar a Revolução dos Cravos, ocorrida em 25 de Abril de 1974.)

24 de Abril de 1974 - Um conto!


É quarta-feira, são 18 horas. Estou no meu quarto, na unidade a vida decorre normalmente, como em qualquer meio de semana.
Tenho de ir à messe comer qualquer coisa e ultimar ordens e preparativos. Sem razão aparente estou apreensivo. Não me apetece falar com ninguém e menos ainda comer.
Quase não comi. Uma excitação moderada tomou conta de mim.
Passa-me na frente dos olhos o filme da minha vida. Desfiar de alegrias e amarguras. Êxitos e fracassos. Decisões certas e outras nem tanto. O último encontro com a guerra está bem presente, embora já lá vá quase um ano.
Hoje é diferente. Nunca disparei, nem mandei disparar contra gente da minha terra. Como me irei sentir?
Penso. Tenho trinta anos. Sou capitão há cerca de três. Na melhor hipótese faltam-me oito ou dez para major.
São 20 horas. Saio do quarto, vou beber um café e fumar um cigarro. No quartel tudo está calmo, como previsto. O que há a fazer terá de ser invisível até ao último minuto. Sou informado de que o primeiro comandante está na unidade. Também como previsto. Dou as últimas instruções, de acordo com o planeado e volto para o quarto.
São 22 horas. Que noite longa e que espera angustiante. Embora habituado a este nervoso miudinho, muito comum antes de entrar acção, hoje a coisa parece diferente.
Se tudo correr como se espera e deseja, prevê-se o resultado. Se pelo contrário não, bem! A Trafaria, a Graça, Peniche, Santarém ou Caxias poderão esperar por mim para uma longa estadia. Ah! E não esquecer que o Tarrafal ainda não está desactivado, embora só receba ultramarinos, pode sempre ser alternativa. Esperemos que não.
Vêm-me há memória as figuras e atitudes dos Generais Sousa Dias, Botelho Moniz e Humberto Delgado e o fim dramático de cada um deles, depois de terem abortado as suas intenções.
Como se irão portar os outros? Estarão com o mesmo ânimo? Esperemos que sim.
E o sinal que não chega. São quase 23 horas. Mal se ouve o transístor. Vou para a janela para tentar ganhar onda.
Eis finalmente. Um frémito percorreu-me o corpo e o nó do estômago começou a desfazer-se.
Caminhamos agora decididamente para o gabinete do comandante, que com conversa mole e paternal nos tenta dissuadir da acção, tentando intimidar com as represálias consequentes, a destruição da carreira, as consequências para a família, etc.. E se ele sabe do que fala! Conhece o regime por dentro e há muito que lhe pertence.
Em face da sua atitude, é desarmado e fica preso nas suas instalações, com um camarada armado a guardar a porta e o corredor de acesso.
Com esta situação demorei mais do que previa e não ouvi a segunda senha. Um camarada informa que a ouviu na rádio.
1 hora do dia 25 de Abril, estamos finalmente a sair da unidade e fazer-nos à estrada. Como estarão as outras unidades? Será que alguém se cortou? Haverá atrasos aos horários previstos? Bem! Dentro de poucas horas alcançaremos os objectivos e devemos ter ponto da situação em geral.
Como estarão as coisas com as outras forças? Será que se mantêm neutras, ficarão do nosso lado, ou irão pelo mais difícil e ficarão contra nós? Em breve o saberemos.
São 11 horas da manhã. Fora alguns percalços correu tudo como planeado. Não foi preciso disparar um tiro e as situações foram-se resolvendo. Ao que parece quase todas as unidades cumpriram os objectivos.
Todas as determinações que nos impusemos foram conseguidas. Todas as informações são no sentido de vitória. Mesmo assim, aquela sensação esquisita não me larga!
Fim de tarde de 25. Depois de cumprir outras missões que nos foram sendo atribuídas, regressamos à unidade. Tem um aspecto diferente. Parece mais leve e mais nossa. Será do dever cumprido? Será de querer acreditar num futuro diferente e melhor?
Vamos esperar e estar atentos.
Janto, calmamente, na messe. Tudo parece diferente. A mudança de regime, embora ainda incipiente já se nota.
Como terão corrido as coisas pelo país?
Bem! Afinal o 25 de Abril de 1974 acabou por acontecer.
O que nos reservará o futuro e as nossas capacidades ?
Vamos esperar e estar ATENTOS.

Um Militar,
25 de Abril de 1974.

sábado, 24 de abril de 2010

VIVA O 25 DE ABRIL DE 1974


Porque os meus colegas de blogue devem ter preparado algo para o 25 de Abril, a minha homenagem ao DIA mais belo, encontra-se no meu blogue

sexta-feira, 23 de abril de 2010

VIVER O 25 DE ABRIL, SEMPRE DO MESMO LADO, COM OS MAIS FRÁGEIS


POVO, MFA E CRIANÇAS ( sempre estiveram presentes)



As crianças, o povo e o meu comandante ouvem-me nas comemorações do 25 Abril 75


.


Logo em Novembro de 1972 gritava de Angola, em carta, escrita da Damba, ao meu camarada, Alferes Custódio Pereira, que a juventude do exército deveria reclamar pelos seus direitos, quanto a andarmos numa guerra perdida.

Em 1973 adiro, desde logo, ao movimento dos capitães. Bebo as palavras de Vasco Lourenço no seu discurso de 9 de Setembro na quinta do velho Garcia, em Évora, e assino em 10º lugar a 1ºfolha do abaixo assinado, não por mero acaso, mas porque quis dizer que era dos primeiros. Todavia eles nem se aperceberam disso, para os dirigentes era tão só mais uma assinatura, mas para mim, não. Era um acto de ousadia, ser dos primeiros a assinar e com o nome bem legível.

Depois fiz parte do grupo dos que se reuniam na casa do Salgueiro Maia, para perscrutar que destinos para Portugal e para Africa.

Fiz parte do grupo que elaborou o plano para a tomada da Escola Prática de Artilharia, de Vendas Novas, e, em boa verdade, dos três que o deviam produzir, praticamente aquele plano foi feio por mim. No dia 24 de Abril muito poucos o conheciam. Tive de me exaltar contra o meu camarada tenente Brandão e Capitão Duarte Mendes, este, porque escolhia os militares mais operacionais para ficarem em Vendas Novas ( claro que os de costume dirão que são vaidades e devaneios meus, but é a factualidade…)

Antes enfrentei o capitão Santos Silva que dizia que só avançaria sobre Lisboa se não houvesse oposição da GNR (heróico) contra o que me opus, e, assim , em dado momento sou substituído pelo meu camarada Brandão, todavia no dia 25 de Abril, de facto, o operacional era eu, - isto não tem qualquer valor especial, é uma mera competência militar entre muitas - e não meu camarada, e, por isso, marchei sobre Lisboa.

No dia 24 de Abril 74 somos os primeiros a entrar em acção entre as 23 e as 24h. Estivemos sós depois de tomarmos a unidade, e, agora, há uns patetas a dizerem que fomos precipitados. Era o chefe da equipa que assaltou o gabinete do comandante, e tive de tomar a mais difícil decisão de um comandante militar que foi a de não abortar a acção, apesar da ausência do elemento mais operacional da equipa, um oficial dos comandos, que substituí em cima da hora, ali mesmo, por um outro camarada, o oficial mais pacifista do Exército, o que, naturalmente, em termos militares e tácticos, era colocar uma carta fora do baralho, como é evidente, evidentemente, numa situação onde era preciso trunfos, ponto.

Mas o 25 de Abril 74 trazia já o seu mau presságio. A força de Vendas Novas vinha sob o comando de um homem antes de depois do 25 de Abril sob suspeita, acabou por ser afastado da unidade. Recebi do então capitão Sousa e Castro a missão de controlar a subunidade daquele capitão, por se crer que fazia parte da maioria silenciosa.

Cumpri esta tarefa que veio a ser descoberta por erro (in) desculpável do furriel Sequeira, ao pedir ao quarteleiro para o informar, se o capitão tirasse armas da arrecadação da companhia de que era comandante. O quarteleiro passou a palavra ao capitão e rebentou a “bronca”. Queriam sacrificar o Sequeira, mas o responsável era eu, e assumi todas as responsabilidades, sem nunca comprometer a Comissão Coordenadora do MFA

Como valeu a pena ter dado a cara por essa gente! Esses mesmos, logo após o 25 de Novembro deportaram-me para a Madeira para ser morto pelos bombistas, facto que denunciei. Não morri, mas fui preso por dois anos por ter enfrentado o bando dos “ Diabos à solta” que me queriam mandar para os “anjinhos”. São estes os meus grandes ganhos.


Depois do 25 de Abril estive sempre com o povo na resolução dos seus problemas, fi-lo todos os dias, mas nunca despi, humilhei ou maltratei agrários, pelo contrário, resolvi problemas entre eles, por exemplo entre o Sr. Veiga Teixeira e o Sr. Infante da Câmara. Recebi daquele uma caixa de pêssegos, por lhe ter resolvido a questão

No próprio 25 de Novembro 75, às 8h, ia para as tarefas do costume, quando sou alertado por Pinto de Sá, de Montemor, que se preparava a minha prisão, o que, me leva a entrar como espectador no 25 de Novembro, alertando o Copcon sobre os movimentos das unidades da região Militar de Évora, nomeadamente o regimento de Estremoz, tão diligente, no 25 de Novembro, quando no 25 de Abril, o parto foi tão difícil.

Mas de tudo quanto fiz e disse, fi-lo à luz de todos, do Povo e dos meus comandantes, como as fotos revelam. Falo sobre um palanque e sou escutado pelo povo nos termos que um cidadão anónimo registou no seu diário, agora publicado pela Fundação José Saramago.( “Uma Família Alentejana” de João Domingos Serra) e também me ouvem o meu comandante e 2º comandante.

O povo do Alentejo conheceu-me no dia a dia, na resolução dos problemas concretos, durante esse tempo aquelas terras revigoraram-se, no trabalho, na produção, no desenvolvimento. O povo reconheceu-o e manifestou-o várias vezes, como também os documentos fotográficos confirmam.

Mas tudo a reacção levou, e não o digo sob o pressão da tristeza pessoal que hoje cobre a minha família, pelas cinzas negras da vida, digo-o com o optimismo que se o POVO romper com as Amarras da mentira, da camuflagem poderemos ganhar de novo a Primavera. Mas como vamos e com quem vamos, o risco de um longo inferno é previsível.

Seja como for o fascismo foi contido, mas não derrotado e muito menos os inimigos do Povo e os corruptos.

Abril não está cumprido na realização de uma politica ao favor das classes trabalhadoras, nem do combate à corrupção, nem sequer, no mínimo dos mínimos, dos fundamentos do Estado de Direito que é a justiça a funcionar com correcção e celeridade.

Como nem isto está acontecer, então, porque se mente e esconde toda a realidade, quando, para sairmos desta grave situação, seria precisa uma grande tomada de consciência pelos grupos cidadãos mais desfavorecidos e frágeis de Portugal.

Perante a evidente moleza dos que pretendem combater a corrupção, graves males nos esperam. Mas não culpem todos por cumplicidades a que alguns, muito poucos, são alheios, porque se recusam a se sentarem à mesa dos cardeais, para receberem migalhas, que o sangue dos desgraçados produz.

É PRECISO APROFUNDAR E DEENDER ESTE ABRIL E NÂO ANDAR POR AÍ ESTRIDENTEMENTE A QUERER O QUE NÃO É PROVÁVEL, DURANTE, MUITO E MUITO TEMPO, OUTRO ABRIL.

LUTEMOS POR ESTE, POIS SE NÃO FORMOS CAPAZES DE O SALVAR DOS SEUS ALGOZES E DETRACTORES, ONDE, ENTÃO, ESTÃO OU ESTARÃO AS FORÇAS PARA UM NOVO ABRIL, QUE IGUAL OU SEQUER IDÊNTICO NUNCA SERÁ. NÃO É PREVISÍVEL NO HORIZONTE DE DÉCADAS MAIS NENHUM MFA. MAS O POVO PODERÁ E DEVERÁ APROFUNDAR O ABRIL QUE NASCEU EM 74.

MAS NESTE ABRIL TAMBÉM DEVE SER DITO QUE MUITOS TÊM FEITO DOS CAPITÃES DE ABRIL, SOBRETUDO DOS QUE SEMPRE ESTIVERAM AO LADO DO POVO, MAIS FIGURAS DA RETÓRICA POLÍTICA DO QUE VERDADEIROS INTERVENTORES NA SOCIEDADE PORTUGUESA DE ONTEM, DE HOJE E DO FUTURO, PORQUÊ?....

ABRIL!.... ABRIL!…..
PORTUGAL E POVO DE ABRIL, QUANTO VOS AMO!



abril 2010

andrade da silva





quarta-feira, 21 de abril de 2010

O que eu festejo neste 25 de Abril...








Festejo com um sabor amargo:







- 1 cidadão que tendo trabalhado toda a sua vida, está reformado com 70 euros/mês, o que incomodou e chocou um querido e respeitado amigo e Companheiro, não me tendo surpreendido, a mim, que tenho este conhecimento desde sempre e com ele lido no dia a dia;

- Muitas são, milhares, neste país, as reformas entre 90 a 200 euros/mês;

-1 gestor público que recebe 3 milhões de euros/ano;

-5 gestores públicos com um total de 6 milhões de euros/ano;

- 1 administrador, que depois de um ano de serviço prestado, é reformado com 18 mil euros/mês e põe a empresa em tribunal porque está a ser esbulhado nos seus direitos;

- 1 administrador de banco que, saindo para a reforma com o título de “reforma antecipada por motivos de saúde”, recebe 10 milhões de euros de indemnização e uma pensãozita de 15 mil euros/mensais;

- 1 administrador de banco público e político de carreira que se reforma com 18 mil euros/mês, sendo magnânimo, pois não exigiu a contagem de todos os cargos;

- empresas publicas, prestadoras de serviços de primeira necessidade, EDP, ÁGUAS, GALP, PT, etc., fazendo investimentos de milhões de milhões de euros no estrangeiro, com o dinheiro que nos esbulham todos os meses em serviços e produtos desenfreadamente caros, daí tirando lucros inimagináveis, cujos dividendos são distribuídos entre amigos (accionistas) e gestores – topo de gama – não revertendo um cêntimo em retribuição do País ou do sustentador (nós), com a agravante da má qualidade do serviço prestado e do equipamento disponibilizado;

- 260 Cidadãos magníficos com mordomias e imunidades acima dos 5 mil euros/mês;

- + 260 Cidadãos que assessoram aqueles e lhes seguem as magnitudes;

- os aparelhos partidários com fundos incalculáveis, saídos do erário público, contando-se por muitos milhões de euros/ano;

- a corrupção instalada como, cartilha política, quer em termos monetários, quer de influência, tendo dificuldade em perceber qual é mais grave e danosa;

- os milhares de milhões de euros gastos estúpida e desnecessariamente para tapar ou comprar favores e compadrios, levando a uma sangria que deixa exangue o tecido nacional;

- uma ministra que tem o atrevimento e o descaramento de publicamente assumir, que os portugueses não se devem admirar nem surpreender, por a partir de agora os ordenados em Portugal serem bitolados pelo salário mínimo, porque assim deve ser face ao problema nacional;

- 30 mil trabalhadores na função pública a recibo verde, logo sem contrato, quando todos os ministros têm assumido o fim de tal aberração. Esta situação arrasta-se há dezenas de anos, sem solução;

- 600 mil desempregados, subindo este número todos os dias, mas tendo o principal responsável o desplante de dizer publicamente que foram criados 150 mil novos postos de trabalho… olha se não fossem;

- a propagação de auto estradas e obras faraónicas, sem utilidade outra que não seja encher os bolsos a amigos e grandes grupos, com a agravante, no caso das estradas, de serem chão pátrio, cuja utilização é paga e bem, a particulares que nada fazem ou fizeram, pois se o chão é meu, a obra foi do estado;

- hospitais construídos com dinheiro público, logo nosso, dos nossos impostos, equipados pela mesma entidade e entregues para exploração comercial, outra coisa não é, a privados, que ainda por cima reclamam, e recebem, milhões de euros/ano a título indemnizatório pelo serviço (pago) que prestam;

- Uma EU, onde me meteram ao arremedo, contra vontade por mal negociado e que agora vem garantir reformas para os seus predilectos com base em no mínimo, 9 mil euros/mês, ao perfazer 50 anos de idade, com o argumento de que é necessária a entrada dos políticos dos novos países aderentes;

É este, o 25 de Abril que eu festejo neste ano da graça de 2010 e trinta e seis anos depois do dia da ESPERANÇA. Trinta e cinco anos depois de os Sérios, Inteligentes, Humanos e Patriotas, terem reposto a verdade – a sua verdade e dos seus mentores.

Gostaria que fosse outro. Não é. Esta é a realidade do meu país, por muito que tentem esconder ou mentir.

Razões ? Culpas ? Alternativas ?

Também as temos e falaremos delas após os “festejos”.


Jerónimo Sardinha

segunda-feira, 19 de abril de 2010

VIDA:BELEZA,HONRA E SACRIFÍCIO.


Quando a montanha basáltica, coberta de verdes, tapa o Sol Nascente, a minha terra, a Madeira, diz-me sempre que daí a algum tempo, esplendorosamente, lá no cimo da Montanha o Sol brilhará. Sabemos que é assim, quer perante os aluviões, quer face à morte. Somos Madeirenses


Escrever nas presentes circunstâncias tem duas dimensões, em mim, como com outro qualquer ser humano, uma catártica, nunca nenhum de nós está suficientemente preparado para partir para sempre, nem ver partir um seu ente querido. Todos amamos muito o outro para aceitar tal desenlace, mas por esta dimensão ainda me poderia calar.

Todavia, há uma segunda que julgo que tem carácter moral, partilhar a minha experiência individual com os pouco que me lêem, para melhor conhecerem a realidade do outro e, se possível, ainda melhor compreenderem e conhecerem o Mundo, o outro e as contra- curvas da vida, o que, deveria servir para uma melhor valorização do Amor e da vida.

As amigas e amigos que me lêem e me conhecem sabem da minha profunda formação religiosa – católico praticante, com frequência quase diária à missa das 7h da Igreja do Bom Jesus, no Funchal, ( Funchal que hoje- dia da festa das flores- já não quis ver na TV, não só pelo écran estar sujo com aquelas personagens, mas também por ser, hoje, terra de dor, para a minha família), até aos meus 17/18 anos.

Nas missas comungava, fiz dois cursos de cristandade para jovens, rezei imensos terços com os braços em cruz, alguns em noites de Inverno junto à imagem de Nossa Senhora no Terreiro da Luta, freguesia do Monte.

Deixei de ser católico, depois de ser secretário diocesano da juventude escolar católica, porque o padre Vidal do centro académico do Funchal facultou, durante umas férias grandes, o acesso daquele centro aos meninos de bem da juventude católica, chefiados por um meu colega de origem belga, pai do secretário de estado do turismo no anterior governo do PS, o Sr. Trindade, hoje, dono de uma cadeia de hotéis na Madeira, contudo ao meu grupo de pelintras recusou-o. Para nós o Centro estava encerrado para obras.

Para mim , ontem, como hoje, uma organização que discrimine positivamente os ricos e desfavoreça os pobres é IGNOMINIOSA, NOJENTA, DIABÓLICA, e, sou alérgico a estas podridões. Afasto-me destes malfeitores.

Na minha vida sempre preferi cumprimentar por engano as mãos sujas de um maltrapilho ladrão de galinhas, a simular deferência e apertar as mãos enceradas de um matador de gentes, nações e terras.


Todo o património de vida que devo honrar e quero honrar, é também da minha família, ser religioso ensinou-me a minha mãe, deixar a Igreja Católica também aprendi com os meus pais que me ensinaram a ser coerente, a desprezar os vilões e a amar, respeitar os pobres, os meus irmãos, nunca desistir, lutar sempre e nunca se dar por vencido, ser honesto, ter orgulho, nunca se curvar perante a injustiça, e, por isto, lutaram, à sua maneira, até ao último segundo.

Das muito poucas coisas grandes e maravilhosas que guardo da Igreja Católica, como agnóstico, refiro a vida de Cristo, e alguns mandamentos da lei de Deus, como: honrar pai e mãe e amar ao próximo, como a nós mesmos.

Sempre entendi na minha vida e aos outros transmiti que em cada momento honrar pai e mãe, seria em todas as circunstâncias na vida e na morte daqueles, fazer o que fosse justo, e lhes desse alegria, orgulho, honra e felicidade, e, assim, foi sempre no seio da minha família, onde, somos iguais entre iguais.

Na minha família nunca houve nenhuma hipervalorização dos nossos sucessos, nem nenhuma tragédia perante os nossos insucessos. Enfrentámos sempre a vida como algo de muito belo, com muitas contra-curvas, muitas mesmo, mas como madeirenses sabemos que, por vezes, as montanhas tapam o sol nascente, mas não o matam. O sol nascente brilhará sempre, mais tarde, ou mais cedo.

Na minha família, com a minha mãe à frente sempre tomamos as mais difíceis decisões com os corações despedaçados, mas decidindo, sempre.

Em 1963 é tomada a decisão da minha mãe e irmãs partirem para o Brasil, onde, o meu pai se juntaria depois de ser promovido a major e passar à reserva. Com 15 anos de idade fico em Portugal, porque queria ser militar, era a minha formação patriótica que me levou à Mocidade portuguesa e mais tarde à Academia Militar

Também me rebelei na Mocidade Portuguesa, e por defender outros tive processos disciplinares, travei lutas tremendas contra um professor do liceu, o Dr. Brás, que, como professor de filosofia, me deu 19 valores na prova oral do 7ªano. Homem que adivinhou o meu futuro: " És um às ( na organização),- dizia - mas vais ter um futuro muito complicado por causa da tua maneira de ser". Pudera três dias depois este homem expulsa-me da organização de que era director.


Todavia neste ano de 1963, depois da minha mãe partir para o Brasil, o meu pai baixa ao Hospital da Estrela em Lisboa, com um cancro. Morre e é enterrado em Loivo, terra de seu nascimento, e um seu filho está na Madeira, outras no Brasil, não o acompanhamos. A vida…

Caiu-nos o Carmo e a Trindade em cima, e a minha mãe decidiu regressar a Portugal com as minhas irmãs, e a vida foi acontecendo e dos escombros nascemos, e hoje somos o que somos.

Também aprendi com a minha família e com a minha mãe que honrar pai e mãe era sobretudo em cada momento, independente das circunstâncias fazer o que fosse justo e mais lhes aprouvesse, e, no caso da minha mãe, nestes momentos, horas, dias, semanas ou… que antecedem a sua partida definitiva, todos sabemos que a sua preocupação nunca estaria centrada em si, nunca, ela é mãe, nós seus filhos e sabemos do seu altruísmo e das suas preocupações que estarão TODAS, sobretudo centradas na grande desprotecção que a minha irmã residente na Madeira sentirá.

Nós o sabemos e contra tudo, por entre terramotos, mortes e vidas, destroçados, chorando, ranhosos, exangues cumpriremos esta sua vontade, a sua maior e talvez única vontade apoiar, apoiar, apoiar, apoiar, apoiar, apoiar sempre, sempre a nossa irmã que viveu todos os dias, todas as horas, segundos durante 60 anos com ela, e, enfim, pensava, sempre pensou, que a mãe era eterna, apesar de já estar bastante doente há 3 anos.

Todavia esta mulher tem o seu coração a bater forte. No pico do AVC tinha uma tensão arterial de 11 -8, o que, pelo menos, ao nível dos conhecimentos do pessoal das ambulâncias era inesperado.

Disto nada sei, mas sobre a sua vontade e altruísmo sabemos quase tudo, são sessenta e dois anos de vivências, aprendizagens, cumplicidades, onde, quase nunca houve divergências, somos gente de paz, amantes do Belo, do Sol, das Serras, do Ar, do Mar, por tudo isto até o AVC a vencer, a minha mãe só queria o contacto com a rua, o que, lhe foi sempre proporcionado. Agora, acabou, a natureza venceu a natureza de uma MULHER REBELDE, ETERNA.

A vida, a montanha basáltica e verde que tapa o Sol Nascente… mas o Sol Nascente Brilhará….

Embora tenha tantas vezes revelado que à morte … à morte… à morte…. daria a morte, como às doenças e ao ódio, sei que o Sol nascente não se apaga, nestas horas finais e depois delas, surgirá segundo novas formas. Os nossos espíritos estarão tranquilos.

Vida! Mesmo no epicentro de um terramoto continuo a proclamar quanto te amo, e também a agradecer-te os pais e as irmãs que me destes.

Vida também te rego com as minhas lágrimas. Viverás sempre e contigo a minha mãe e o meu pai, e toda a gente generosa, sobretudo aqueles velhotes perdidos e abandonados por terras com belos nomes como Abela que sobrevivem em 2010 com pensões miseráveis de dezenas ou poucas centenas de euros.

A vida….

andrade da silva

domingo, 18 de abril de 2010




Enviado pela Inês Ramos. Obrigado.Um abraço para Montemor-o-Novo e todo o Alentejo.

VIDA. DECISÃO.





Trouxe para o blogue por altruísmo e amizade um assunto do meu foro pessoal, fi-lo, porque também aprendi na psicologia-cognitiva comportamental que devemos de dar aos nossos amigos a oportunidade de nos apoiarem nos momentos de dor. Não o fazer poderia ser soberba, arrogância e egocentrismo.

A questão é até em termos técnicos posta às pessoas que sofrem sós, através da pergunta se elas não gostam de apoiar os outros em situações difíceis. Se sim, então, porque recusam aos seus amigos igual direito e bem estar moral? Eis a razão, porque vos falei.

Naturalmente que o meu desejo justo e humano era voar para junto da minha mãe, mas a Madeira não é, nem o Porto, nem Faro, tem 900 km de mar e a grave tragédia – que também é a vida - que afecta, a minha mãe e os seus filhos, levanta uma questão crucial que é a do apoio à minha mãe e à minha irmã residente na Madeira.

Nós agimos, a minha irmã residente, a minha irmã que vive no Algarve que é médica e eu como um triângulo de apoio, avançando para o terreno quem melhor na situação puder cumprir um papel útil à minha mãe e irmã residente na Madeira, neste caso, obviamente, foi a minha irmã médica, para o diálogo médico útil nestas situações.

Todavia para quem não sabe, porque esteve sempre perto dos seus, sofrer à distância não é em nada menor do que sofrer em tempo real, pode até ser pior, não permite nenhuma dessensibilização. É o sentimento da impotência total, e, isto conhecem bem os militares em operações quer nas da guerra colonial, quer os das missões de paz.

Recordo quanto sofria a mãe de um soldado que esteve em estado de coma no Hospital Militar Principal, por viver em Vila Real e não ter dinheiro para as deslocações, e nem sequer havia meio legal de financiar as suas vindas a Lisboa por falta de rubrica contabilística, apesar do Regimento de Comandos ter essa dinheiro disponível.

Nas minhas várias vidas já vivi a de muitos outros. Felizmente este soldado pelo grande trabalho, amizade e competência de um grande camarada e grande Homem, tenente-coronel médico Rui de Carvalho do HMP, regressou à vida.

Uma vez mais na tragédia que sobre nós se abate a DECISÃO CONJUNTA DE NÓS OS TRÊS É A SEGUINTE:

1- A Situação clínica da minha mãe é que provavelmente não recuperará do AVC;

2- Face à sua avançada idade poderá morrer a qualquer momento por qualquer inflamação sobrevinda


3- Neste momento está orientada medicamente e devidamente apoiada pelas minhas duas irmãs, dando o devido apoio à minha irmã mais fragilizada a minha irmã médica que é também um grande mulher,

4- Consideramos que o apoio à minha irmã residente e à minha mãe deve ser continuado e não baseado em três e depois num filho, mas sim quanto possível em 2, para garantir também algum apoio à minha irmã residente


5- Assim a nossa decisão é que nesta fase até 25 de Abril 2010, coincidência, fico onde estou e avanço para uma segunda fase de apoio, isto, porque nenhum de nós pode ficar por muito tempo no Funchal e só poderá deslocar-se à Madeira com muita parcimónia ( o que ganhamos mês é menos de 25% do que ganha num dia, o DEUS DA ECONOMIA PORTUGUESA, sr. Mexia, a vida...)

6- Se entretanto houver um desenlace fiz o que moralmente devia ter feito, como sempre na minha vida, e fi-lo com a dor de quem ama e, neste caso particular, tem o maior orgulho, um imenso orgulho, nos seus pais. Também por causa da insaluridade e não só, o meu pai morreu no Minho, estava eu na Madeira e a minha mãe no Brasil, para onde iriamos se o meu pai, entretanto, não tivesse morrido.... a vida... a vida... as suas contra-curvas.

A vida.... a vida.... e as suas contra-curvas....

Aos que com recta intenção e por altruísmo me quiseram indicar os caminhos mais evidentes, o meu obrigado, mas esses também os conhecia, e se não os palmilhei só poderia ser por uma razão muito maior.

Será sempre bom ver as dificuldades da insularidade e das diásporas. Nada, de nenhum ponto de vista afectivo, financeiro etc, é fácil para os membros das diásporas. Até mesmo o arranjar lugares em cima da hora num avião, serve para engordar os negócios das transportadoras.

Embora completamente fora deste contexto, mas porque se falou de Abril, sempre direi que tenho orgulho no 25 de Abril, mas não me identifico com as festividades actuais até, porque o 25 de Abril genuíno, o do amor que iniciamos com o povo tempos depois daquela data, foi morto no 25 de Novembro 75, hoje, existe mais é 25 de Novembro, o que, muitos cobardemente calam, e vitoriam no 25 de Abril, os tais vitoriosos do trágico Outono, portanto, no dia 25 de Abril, como nos outros, luto é pelo Abril perdido, e para que não se perca mais, ponto.

Não vivo junto de nenhuma gamela do poder, nem de nenhumas tetas, nem me misturo nas tais festividades com gente inimiga do POVO MAIS DESFAVORECIDO.

Como diz, nas suas obras sobre o 25 de Abril, Dinis de Almeida, nos idos de 73 Kaúlza de Arriaga queria valer-se do apoio dos capitães que não tinha, para ganhar dividendos pessoais. Outros fazem hoje a mesma coisa, enganam à esquerda, e o povo lutador, para obterem dividendos pessoais da Governança. Não há almoços gratuitos. Vivemos na lama, na mentira, na cobardia e na hipocrisia.

Nesta vil tristeza e neste chiqueiro nunca estarei em festividades, mas estarei sim, a comemorar o 25 de Abril, onde, o povo de Abril estiver, o que, procuro fazer todos os dias. Não preciso de calendários, mas eles existem, logo…

Obrigado aos que genuinamente me apoiam e são solidários.

andrade da silva
PS: Procuro também dar um contributo para que se conheça mais, quão, por vezes é complexa, trágica dificil a vida, dos membros das diásporas.

sábado, 17 de abril de 2010

VIDA.


Neste Abril sou solidário na dor com os que sofrem, como vou sofrendo. Neste Abril a natureza deu-nos o pão que o diabo amassou.”



Conheço algumas coisa da vida, umas muito belas, outras belas, algumas cinzentas e outras negras, como todas as demais pessoas. Destas coisas todas que conheço, muito cedo deparei-me com o grande contraste o de morrer cedo demais e o de uma quase eternidade.

Pelos meus 12 anos, vi partir com um ataque de coração, uma minha avó de cinquenta e tais anos, que sentada, com um gato ao colo, no cimo das escadas que ligava o rés do chão da sua moradia, cheirando tabaco, um comportamento que já, então, considerava horrível, contemplava os carros que iam para a montanha ( local na Madeira, a norte de S. Gonçalo ), um dia deixou de estar ali, e foi viver para o cemitério de S. Gonçalo, cujas paredes laterais se viam do seu ponto de observação.

Por esta altura vivia ainda uma minha bisavó de 99 anos que morreu por causa da infecção que o arranhão de um gato da rua lhe provocou, contrariamente, à minha avó contemplativa, a minha bisavó ninguém a podia ter quieta, gene que herdou a minha mãe, mas que, agora, jaz inerte.

Depois pelos meus 16 anos vejo partir o meu pai, com 56 anos de idade, um homem que era um colosso de saúde, força, inteligência e valores. Um homem incorruptível, completamente blindado a ofertas para obter favores. Dele recebi a única bofetada correctiva com que me brindou, por ter aberto a porta da casa, pelo Natal, a uns soldados que colocaram na mesa de jantar do capitão Silva, um bolo e duas caixas de bolacha.

Tive a triste ideia de dizer que aquilo seria uma oferta de um seu amigo coronel, logo, recebi uma bofetada e, por ordem, com se alinhavam a minha direita, a minha irmã e a minha mãe.Estávamos absolutamente proibidos de receber qualquer prenda.

Depois comemos o bolo, acompanhado das desculpas do meu pai, era uma oferta institucional da Manutenção Militar aos comandantes. Pessoalmente desculpei-o, e gostei do bolo e das bolachas.

O meu pai que tanto cumpria a sua função de comandante da guarda fiscal do Funchal- sem qualquer temor, enfrentou poderosos, como o deputado da Nação Dr. Agostinho Cardoso, tio de João Jardim - como fazia fotografia e cinema e montava com engenho e força admirável um pombal, este homem, em três meses é destruído por um cancro. Percebi cedo que as árvores também se abatem.

Perdi muito precocemente o meu pai, e com ele ruiu toda uma vida, passei de remediado a pobre. Passei, em 1963, de filho de capitão, a órfão de um capitão com direito a uma pensão de 100 escudos mês, com o desconto de 1 escudo para imposto de selo. Descobri a crueza da vida, mas não a maldição do fascismo, porque, então, católico praticante considerava que estas passagens eram desígnios de Deus, logo, nada a fazer, e era dever aceitar tais desígnios.

A vida foi andando, descobri cedo que a vida era finita, contudo ficou a minha mãe forte, heroína, intuitiva, impulsiva, com um sentido profundo de justiça.

Nova ainda atirou uma caixa de costura à cabeça do patrão. Andou nas Revoluções e revoltas da Madeira contra o fascismo, não tinha medo de ninguém, nem estava disposta a aturar quem quer que fosse, para além do meu pai, ausente em serviço pelo oriente, por Macau. Andávamos sempre com a casa às costas de S. Martinho, para S. Gonçalo, de S. Gonçalo, para S. Martinho, que tempos!...

Tinha sete anos e vi-a dar uma grande bofetada num dos nossos senhorios que queria através dela travar uma batalha com um inquilino Homem, escolheu uma mulher, enganou-se. Encontrou uma Maria da Fonte, e o malandro levou uma grande bofetada, foi-se queixar à policia, e o major comandante, o major Morna, um grande major, mandou-o bugiar e deixar de ser big.

Depois de receber a noticia de que está hospitalizada num hospital com um AVC, depois da Alzheimer a ter tentado deitar abaixo, o que, não estava a conseguir, surge, agora, nesta luta desigual um novo trunfo – o AVC – e ei-la agora a travar uma das suas últimas batalhas.

Vejo-a heróica, em 1976, vinda da Madeira para dar apoio ao seu filho preso – eu, seu filho –pelos energúmenos deste podre regime democrático, podre desde 1975. Este regime que me mandou em 1976 para a Madeira para ser MORTO pela flama ( movimento separatista da Madeira), como o bombista-mor, de nome Firmino, meu antigo colega, daquele grupelho o declarou, o que denunciei ao Brigadeiro Azeredo. Todo o país soube isto, mas não se comoveu. A podridão deste regime tem 35 anos.

Como a Flama não me matou tive de ser preso, porque não me deixei matar por um grupo de 10-15 indivíduos do bando Diabo à solta que me queriam linchar. O juiz presidente do tribunal, coronel da Força área Cruz Novo, declara aos meus advogados Dr. Xencora Camotim e Goucha Soares e a mim que estou inocente, mas que votou a minha condenação a 18 meses de prisão, para desarmar a vingança ideológica e o ódio ao jovem capitão de Abril, do juiz Rui Gonçalves Pereira que me queria condenar a 4 anos de prisão maior para ser expulso do Exército.
Todavia como se isto não bastasse os fascistas querendo baralhar tudo, lançaram a ideia de que era um dos apoiantes de uma manifestação a Américo Tomás, o que, muito exasperou a minha mãe, e lhe complicou a vida, porque, então, a sua base de apoio era na casa de uma nossa amiga comunista, a Modesta , numa terra, o Couço, em que 80% ou mais votavam PCP.

Esta Mulher, de seu nome Conceição, minha mãe, aos 87 trava a sua ou uma das suas últimas batalhas, e, agora, procuro aplicar em mim próprio e à minha família o que ultimamente tenho sugerido a familiares e amigos para pensarmos e aceitarmos que não somos eternos que temos de partir, e que este partir é tanto mais razoável, quanto mais idade e menor qualidade de vida temos, como no caso de cancros, Alzheimer, AVC, sei que isto dói muito, como sempre disse e há muito pouco o dizia baixinho à minha colega Cláudia, agora, estou nesta prensa, mas sei que não há outro modo de a viver.

Dói, dói muito, mas pior seria se a razão fosse derrotada pela soberba. O meu coração rebenta como todos os outros, e mais porque neste momento tendo ido para a Madeira a minha irmã médica, fico sem saber bem o que fazer, partir, ficar, esperar alguma clarificação que só para segunda-feira haverá, que fazer? A Madeira não é ali, e uma vez mais o 25 de Abril interfere nas minhas decisões, assumi compromissos, estou numa encruzilhada…

Penso e aguardo, mas espero nunca me deixar vencer pela soberba, e o mesmo farei junto dos meus, conquanto compreenda que entre nós, seus filhos, não estamos todos em igualdade de circunstâncias, sei que tudo é muito mais doloroso e difícil para minha irmã que ao longo de toda a vida viveu com a minha mãe.

Queira-se ou não as diásporas são uma forma precoce de se morrer uns para os outros. A diáspora é uma forma de morte antecipada.

Neste Madeirense em Lisboa com a sua família dispersa pela Madeira, Lisboa, Algarve o rasto da morte acompanha-me desde há muito, mas cantarei a vida, embora nesta luta confusa de ficar, partir, aguardar, vivendo com um profundo sentimento de impotência, acreditando profundamente que nada posso fazer por agora, sobretudo enquanto as minhas irmãs se puderem apoiar mutuamente, fico enrodilhado num circulo. Há momentos que não sabemos bem o que fazer, embora o impulso evidente seja só um, mas…

Aqui estou, neste Abril que desejaria fosse melhor para todos, mas também bem outro para os meus, para os que em semelhantes palpos se encontram e para mim. Enfim é a vida, nas sua curvas e contra-curvas….

Vida… Vida….

asilva

sexta-feira, 16 de abril de 2010

POEMA: Rui Mendes

ARTE : António Ferraz


Ao António Ferraz

Escrevo depois da morte concêntrica

na fusão afundada da linha do horizonte

ouço o sangue vivo através dos subterrâneos

debaixo dos pés até à caverna dos dentes

fechou-se a terra e os lábios estelares abriram


agora na voz escrita rubra sombra das palavras

ninguém pode cobrir-se de névoa ou frio

tão-pouco o grito das sementes galácticas

encontrará no mármore o oráculo do sonho

volátil a agonia vê a vulva na ostra de bronze


câmaras fumegantes os mísseis arrefeciam

em cicuta estelar pelo cerne curvo da carne

espargiam ossos plasmáticos e o ar ligava

o céu ultravioleta à boca do instante

ogivas nucleares dessoldavam serpentes


e os áugures mostrando a pele lancinante

imolavam no patíbulo de um zeus cativo

maxilas pleuras palatos e lenhos eram levados

para o fundo das águas pela via láctea

pendular espasmo despenhado da manhã


sentíamos que uma orla caída do espaço

abrigava o púnico pano radial das bandeiras

memória inominável alguém ia dizendo

não te deixes morrer na luz dos meus olhos

mãos consteladas a árvore do fundo não ardia



quinta-feira, 15 de abril de 2010

POBRES DOS NOSSOS RICOS



Mia Couto - Poeta Moçambicano

POBRES DOS NOSSOS RICOS

A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos.
Mas ricos sem riqueza.
Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados.
Rico é quem possui meios de produção.
Rico é quem gera dinheiro e dá emprego.
Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. ou que pensa que tem.
Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.
A verdade é esta: são demasiados pobres os nossos "ricos".
Aquilo que têm, não detêm.
Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros.
É produto de roubo e de negociatas.
Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram.
Vivem na obsessão de poderem ser roubados.
Necessitavam de forças policiais à altura.
Mas forças policiais à altura acabariam por lança-los a eles próprios na cadeia.
Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade.
Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem (...)


MIA COUTO

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Liberdade, blog's e comentários...



A blogosfera foi um dos instrumentos que mais se popularizou entre nós nos últimos anos.


É fácil escrever, comentar, criar uma página, etc.
Permite a quem o desejar manter um anonimato, tão caro à maioria dos portugueses, que sempre foram lestos e ágeis de língua, desde que possam ficar resguardados de responsabilidade ou de exposição.
Permite ainda, sem se conhecer o dialogante, a sua história ou o seu percurso de vida, ser alvo de invectivas, frases abusivas ou acusações e calúnias, a mais das vezes falsas, despidas de fundamento ou fruto de ignorância e maledicência.

Ora, neste nosso “Liberdade e Cidadania”, sempre nos pautamos por uma ampla liberdade de expressão, sem censura nem moderação, deixando que tão somente a vontade, a cultura, a delicadeza e a sensibilidade dos leitores e comentadores seja árbitro da sua vontade e expressão.

Felizmente, nos quase dois anos de existência, só nos confrontámos com dois casos a carecer de moderação e mesmo assim, sem a gravidade que já observámos noutros blog’s. Embora o número de leitores, seguidores e comentadores cresça a bom ritmo, temos a felicidade de ser acompanhados por pessoas com formação, carácter e sensibilidade.

É evidente que o contraditório, o sarcástico e até um pouco agressivo, são saudáveis. As pessoas devem sentir e exprimir as suas emoções. Para isso se fez num determinado ano do século passado, o 25 de Abril, com o sacrifício e o arrojo de uns quantos, para melhoria do estado geral da Nação e do seu Povo. Saber honrá-los e dignificá-los, tendo sempre a responsabilidade de criticar construtivamente, ou, discordar de ideias e formas, mas de modo coerente e cortês, é imperativo da Liberdade conseguida naquele dia, por sua acção e um acto digno de Cidadania.

Ultrapassar essas barreiras. Abandonar princípios de educação e exigência cívica, usar termos e linguagem menos abonatória, para além de ofender o visado minora quem os utiliza e dá péssima imagem pública.

Esperamos, desejamos e estimulamos a participação, crítica, correcção ou sarcasmo de todos, o que nos engrandecerá e ensinará, mas exigimos e com o nosso exemplo impomos uma lhaneza e respeito de todos por todos.

Vamos pois em frente, por um Portugal melhor, mais digno e mais humano, como alguns Homens de Abril sonharam e muitos Portugueses sofreram para ser conseguido.

O Abraço Amigo e colaboração, sempre, do

Jerónimo Sardinha

terça-feira, 13 de abril de 2010

livro digital - 25 Abril para crianças




Texto

Manuel António Pina

Ilustrações

Evelina Oliveira

Já conhecido por alguns, provavelmente...

http://e-livros.clube-de-leituras.pt/elivro.php?id=otesouro








segunda-feira, 12 de abril de 2010

MARROCOS: SOL,VERDE E MISÉRIA


Na mesquita de Hassan II em Casablanca



Marrakech



NÃO DISFARCEIS A VERDADE COMO FALSO, NEM OCULTEIS A VERDADE, SE A SABEIS” ( Alcorão, cap I, vrs 42)


Neste exercício de procurar dizer verdades e não ocultar as que sei, me tenho empenhado e merecido às maldições. Em Portugal, houve um tempo, que se dizia que só a verdade era revolucionária, julgo que é mesmo deste jeito, mas mesmo que não fosse deveria ser praticada, como o caminho mais certo, mas sabemos que não é assim.

Todavia para que possa haver cinismo e hipocrisia lá a burguesia e os bem pensantes atiram contra todos nós que não há a verdade, mas somente verdades. Todos vimos a mesma coisa, mas temos o direito de ver sobre a mesma coisa, realidades diferentes. Que seja assim.

Andei por Marrocos numa excursão “ low cost”, com pessoas do povo, mas com umas centenas de euros para custearem a viagem e comprarem umas coisas. Nas compras somos sempre muito generosos. Compramos tudo, mesmo lixo e, ainda bem, assim, salvamos alguns necessitados que a maioria olha como meros vendedores aldrabões que precisam de ser aldrabados no regateio, a ver quem é melhor.

Estes portugueses fazem esta disputa, e se o vendedor pede 10 unidades monetárias e acabam por comprar por 3, é uma festa. Pessoalmente fico constrangido com uma coisa e com outra, porque entendo a aldrabice do necessitado, já não compreendo a esgrima do aparentemente mais forte contra o desgraçado que precisa de algumas moedas para sobreviver.

Sei que dizem que, culturalmente, se não regateáramos o preço, os árabes sentem isso, como não reconhecimento do mérito. Não sei se é assim.

Há tanta coisa para aprender, mas para mim as coisas deviam ser diferentes. Defendo o preço justo, a ser tablado, regulado pelo estado, ou por alguém com ética e autoridade. Seja na Bósnia, quando por lá passei, comprava as coisas ao preço apregoado, o que, me levou a ficar admirado, quando um soldado que no mesmo lugar comprava, depois de ter regateado significativamente, e deixar menos dinheiro no vendedor, foi recompensado com imensas recordações. Coisas da humana gente, ou capacidade de sedução daqueles soldados… enfim.

Desde que haja várias verdades até dá para cada um ficar na sua, e ninguém se aborrecer, mas há verdades quantificáveis, e, aí, a filosofia é um fraco instrumento, para suster a torrente.

Marrocos tem as suas quantidades trágicas. É um país com uma dimensão a perder de vista, uma costa de muitos quilómetros. Tem 40 milhões de habitantes, 65% trabalham numa agricultura de subsistência, 60% são jovens, idosos são muito poucos, morrerão cedo ? ( a esperança de vida publicitada na Internet é dos 70 anos. Não vi ninguém que aparentasse tal idade, aliás, a gente de meia idade com que nos cruzamos, com 50 anos dá muitos sinais de envelhecimento precoce e não eram camponeses ).Os trabalhadores dos serviços ganham 200€ / mês, como os preços são idênticos aos de cá, logo se vê para que chega tão pouco.

Mas que futuro aguarda os jovens? Em cada cidade há três distintas: a Medina, ( a velha) a Moderna e a Judia. Sempre viveram coexistindo, facto importante. Na Medina, nos bairros periféricos a azafama é enormíssima. À noite Gente e mais gente por aquelas ruelas estreitas. Todos os dias, a partir das vinte até às 22h superpovoam aqueles caminhos, onde, aos montes, as coisas umas ao lado das outras se encontram expostas para venda, são milhares, milhões de tâmaras, peixe , roupas , ouro etc. e claro pó, vírus e bactérias. Que aparelho imunológico terão para resistir a tanta ameaça!

Por entre toda esta festa de cores, cheiros e sabores corre um cordão humano de gente absolutamente prensado, se é turista, por verdadeiras tenazes de vendedores, o que, de facto, cria alguma pressão sobre quem gostaria de acudir àquelas pessoas, seres humanos à beira do colapso, mas não quer comprar lixo, e nem pode, nem sabe muito bem o que fazer entre tanta gente. Se dá algo a um, não sabe o que acontecerá logo de seguida. Dei uma moeda a um jovem que conhecia a Ronaldo, e depois vi-me atrapalhado com outros. A atitude defensiva é, parecer indiferente, mas isso é-me quase impossível.

Tudo em Marrocos é feito na base trinaria: três prefeituras: a antiga, a moderna e a judia; três religiões: a Muçulmana, a católica e a judia, três classes os camponeses e os pobres, a classe média baixa que só com expedientes ou muita ginástica pode ser classe média, porque ganham cerca de 400 € mês e os poderosos da família real com palácios e mesquitas privadas por todas ou quase toda as cidades; as mesquitas com três ou cinco bolas, quando são três representam os elementos terra, mar e ar, e com cinco representam os cinco mandamentos; por aquelas ruas estreitas também correm três grupos de pessoas diferentes os visitantes, os vendedores metidos em lojas, onde, só cabem um ou dois vendedores, tão minúsculas que são e os impingidores de objectos que enxameiam toda o espaço e cercam nitidamente as pessoas, normalmente caminhamos rodeados por dois vendedores, mas muitas vezes por três e raras vezes por um; nas cidades também falam de três cores uma a predominante na pintura das casas que em Marrakech é o ocre para absorver o calor, o azul do céu e o verde dos jardins, como proclamava o guia árabe que falava bem português.

Só posso ver globalmente Marrocos como um país enorme, para milhões de pessoas sobreviverem por uns muito estreitos anos. 60% da sua população tem 18 ou menos anos, não vi idosos.

Marrakech, então, supera tudo em pobreza e na completa desorganização da sua vida urbana, esta é um caos, nas ruas da praça principal todos avançam para os cruzamentos aos memo tempo e aos montes, pessoas, automóveis ligeiros e pesados, carroças. É uma realidade que só vivida se sente e compreende, de resto contada é inimaginável e contraditória.

É intrinsecamente uma cena da idade média, em termos da organização urbana, estando ali a mais, completamente fora daquele caos, os automóveis, o resto estaria certo, se pensarmos em termos de século XVII ou talvez, mesmo antes. Mas se pensar que na África e na Índia estes cenários ainda podem ser mais expressivos, fico mesmo confuso, sobre a capacidade de os vivênciar.

Não creio ter visto alegria, vi por todo lado, por aquelas extensas paisagens, povoações muito dispersas com aquele ocre dos pobres e muitos, imensos, pequenos rebanhos sempre acompanhados por homens e, ou crianças, dando como sinal que a pastorícia será uma actividade muito importante e difundida.

Ao nível monumental temos as mesquitas a da Cotovia em Marrakech, aqui, em honra dos livreiros, nesta sentiu-se os efeitos do terramoto de 1755, mas imponente é a de Hassan II, em Casablanca, sobre o mar, “porque o trono de deus é sobre o mar”, como diz um versículo do Alcorão.

Nesta mesquita para além da brilhante e muito bonita guia, com uma ironia fina, para explicar sem chocar ninguém a razão da separação dos homens e mulheres nos templos, que nesta Mesquita ficam num primeiro andar, enfim, para melhor observarem os homens.

Na sua construção foram usados muitos materiais naturais como ovos, a clara para segurar o estuque e para absorver a humidade as gemas, e as tintas foram feitas com pimentos etc. Esta maravilha da arquitectura foi construída por 2500 obreiros e 10000 artesãos.

Por estas terras os táxis, na sua maioria Mercedes 240 D, muito velhos, são os verdadeiros transportes públicos, levam varias pessoas para sítios diferentes. As pessoas que vivem fora das cidades e nestas trabalham devem ter grande dificuldade em deslocarem-se pela pouca oferta de transportes públicos, parecem ficar muito tempo à beira das estradas à espera de transporte.

Ao cair da tarde há muita gente nos passeios, e, de um modo geral, as/os jovens usam roupas ocidentais. As vestes tradicionais são mais usadas pelas mulheres e por homens de meia idade. Também vesti a túnica. Lá era maioritário, vou tentar fazer a experiência por aqui, a ver como me sinto.

Marrocos como país independente é muito jovem e em todas as cidades a parte moderna tem um tipo de organização urbana muito semelhante à nossa. Os movimentos por todo o território são plenamente livres.

Em Marrakech os jovens reúnem-se à noite para ouvir os narradores contarem histórias de encantar que não podem falar de politica, se não a policia intervém , segundo o guia não bebem álcool que é proibido, mas outros líquidos ou fumos para fazerem longas viagens pelo Mundo da dependência.

Outras histórias, como é óbvio aconteceram no grupo dos portugueses, mas desta vez vou resistir à tentação de as contar, porque como sou irrequieto, intervenho, podendo até parecer que vou ao encontro das coisas, mas não é. Estou ali e sinto que devo fazer alguma coisa, e, logo, faço. Uma das cenas tem a ver com o atraso de duas raparigas de cor, mas isso merecerá um conto à parte.

Como sempre quando de Portugal saio desejava que o regresso fosse dilatado, não fora a incapacidade do meu aparelho digestivo para habituar-se à alimentação dos hotéis e o receio da qualidade dos serviços de saúde que com médicos a ganhar 400 €/ mês deve ser dramática, do que a ausência de idosos deve ser um sinal de mau augúrio, por qualquer lado ficaria bem mais tempo, talvez o resto da vida, desde que nunca parasse em lado nenhum, um errante, um cigano… nos anos 60 ser hippie era algo que me fazia todo o sentido, mas…

MARROCOS como desejaria um 25 de ABRIL planetário, mas que posso fazer, se nem sequer no meu país o 25 de Abril vinga? Em Portugal também tudo está controlado e bem. Desgraçadas das ovelhas fora dos rebanhos.


andrade da silva

PS:

No regresso fui comprar um alcorão, andei por 3 livrarias a Fnac do Chiado, a Bertrand e a Sá da Costa, nestas duas últimas não havia nenhum tradução fosse, qual fosse a língua. Na Fnac só havia duas traduções uma em francês e outra nos livros de bolso da Europa-América, disseram-me que única. Fiquei admirado, se é assim , como há tanta gente a saber sobre o alcorão sem lê-lo, ou só lêem na Internet?
Nos hotéis a alimentação é do tipo ocidental servida em bufete para mal da gula dos portugueses que depois ficam doentes. Tive dificuldades em resistir às tentações dos pequenos almoços com tâmaras figos secos em calda, ameixas tipo de Elvas, etc, mas tive de resistir e resisti. Fui um “gande” H.

Não posso, nem quero esconder a beleza da guia, quer de algumas raparigas que nos acompanhavam. Por toda a parte confessarei a minha paixão pela beleza e é no feminino que mais se expressa, enfim coisas…

domingo, 11 de abril de 2010

SOBRE O SANGUE DOS POBRES




A ECONOMIA TOMOU O LUGAR DA POLÍTICA E FEZ DO FASCISMO DO SÉC XXI UM SISTEMA IMPRESSIONANTE!

Um exemplo: o grande patriota Belmiro. Segundo ele “O que nós queremos é empregos baratos” (sic). 

E, como se presume, o empresário vai ter um funeral com bispo e tudo …
  

 Como A Economia Global Produz Bens Baratos

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Casa

 



 
Como será que se vive nesta casa

que gargalhada estrepitosa ali soou

que flâmula a arder silenciosa

a noite iluminou?

Que janela doirou sobre a distância

o passo de nauta sem regresso

mas que vê reflorir velha fragrância

no caminho pra casa, retrocesso

ou devaneio urgente do sentir

que a emoção trespassa e enaltece

para ver de tão longe a porta abrir

sobre a casa tão bela que parece

levantada de sonho fantasista

por mão que lhe deu vida, a desenhou

mão com perfume a pão

a mão de artista

que a casa edificou



Marília Gonçalves

quarta-feira, 7 de abril de 2010


LUZ MÉDIA

Há tanto anos,
Já nem sei quantos.
Partistes com alegria, imensa.
Era o teu destino.
Vencestes a escola,
Paris chamava-te.
Era o teu destino.
E a correr fostes para o futuro.
Vi-te partir, manhã cedo,
Voando, voando,
Leve, levemente.
Da beleza e da graciosidade
Eras a mais bela catedral.
Partistes.
Amei-te
Vivi a tua alegria.
Amei-te
Senti a dor da tua partida.
Mas Paris era o teu Evereste,
A realização dos teus sonhos
De arte e loucura.
Paris era a tua luz,
A oportunidade sonhada
Paris!… Paris!…
Ainda vieram cartas.
Depois o silêncio
A cidade luz vencia.
Paris ficou contigo.
Espero que Paris te ame,
E que a tua graciosidade,
E que a tua generosidade….
Não!… Nunca!… Não!…
Tu vives, viverás sempre.
Amei-te
Já teu nome não sei, Amor!
Mas que importa um nome?
Amei-te.
E este nó apertado, seco, dorido
Na garganta me acompanha.
Amei-te à luz média da alma
E do coração.
Amei-te, é tudo quanto sei.
Amei-te
Luz Média do meu Norte.



Sem data, há muito tempo, chorando.

Andrade da silva