O PENSAMENTO CHAVE: AMANHÃ, PODE SER DEMASIADAMENTE TARDE ( sobre uma imagem de cruzes de campas rasas ) estava fixo sobre a cabeceira da minha cama.
Parti para Angola, em Dezembro de 1971. A temperatura ambiente em Lisboa era de 13 graus. Eu, madeirense, estava todo encapotado, cheio de frio. A viagem foi nos TAM, (Transporte Aéreo Militar) muitas horas de voo, com o militar hospedeiro a entornar sobre o meu blusão de cabedal verde, o molho de um bacalhau, qualquer coisa - mau sinal ?!....
Chegada a Luanda. Um calor dos diabos, começa o striptease, e a sensação horrível que não havia ar para respirar, para quem já, então, sofria de sinusite, deu logo para entender que estaria “feito”, isto é, em maus lençóis. Passei uns dias nos Adidos com o Custódio Pereira, ele foi para o norte de Angola, eu para o Leste.
Fui colocado em Lumbala Velha, saliente o Cazombo, local das minas anti-carro, a carta de operações dizia-o. Cheguei a este fim do Mundo, a 21 de Dezembro, depois de viajar para o Luso e de uma viagem de avião do Luso para aqueles confins. A companhia de atiradores de artilharia já lá estava há meses.
Lumbala Velha estava situada na margem esquerda do rio Zambeze, no meio de um lindíssimo mangueiral, vivíamos em casas de madeira e dormíamos debaixo de mosquiteiros. Não havia água potável, e tomávamos banhos com os chuveirinhos de campanha que deixavam metade da sujidade. Estávamos isolados. Uma beleza ameaçada pela guerra.
Conhecia todos os graduados, de quem tinha sido o mestre, agora, eram eles os veteranos, e, eu, o maçarico. Coisas interessantes da vida dos Militares!… E uma grande prova de fogo e de verdade para quem foi instrutor e dos duros. Ganhei a alma e coração daqueles militares. Venci a maior prova dos nove a que um instrutor militar pode ser sujeito. Sabem os militares que é exactamente assim.
Logo na primeira noite eles quiseram dizer que eram os senhores da guerra. Durante a noite rebentou por tudo quanto era sítio uma fogachada tremenda, e ali, a regra era “fogo - cavar para os abrigos subterrâneos”. Com toda aquela confusão, escuridão e “cagaço” não dei com o caminho dos abrigos, e fiquei por ali, à beira de um colapso, ou de me borrar. Aguentei-me, nada mau!Os combatentes regressaram, tinha sido um falso alarme, mas era preciso estar atento. Não preguei olho mais naquela noite, porque os cães não se calaram durante todo o tempo, e depois ouvi sempre uns ruídos secos que me pareciam morteiros, mas como o meu companheiro de cubata dormia, que nem um anjo, fiquei sossegado.
Mais tarde descobri o sacana do mistério, eram as grandes mangas que ao caírem de maduras, esborrachando-se no chão faziam o car…. daquele ruído.Não fiquei muito contente comigo, afinal o que vinha para ganhar a guerra, ficou acordado por causa da porcaria de umas mangas. Para tanta “cagança” ( recordam-se este texto tem bolinha vermelha) era mau.
Alguns, mais filhos de uma mãe, há sempre gente desta, mas muito simpáticos, tinham bom olho clínico, e chamavam-me “Vaidade e Silva”. De facto tinha-a, considerava-me um aprendiz a grande cabo-de-guerra, talvez, um Rommel, admirava-o. Coisas, talvez sonhos, qiuçá?!...
Fui Comandar a companhia por baixa psiquiátrica do capitão que nunca conheci. Mais um sinal que queria dizer qualquer coisa, os capitães ficavam "cacimbados". (Todavia em 2008 nega-se a um capitão ter PTSD, porque fez tão bem a guerra e foi tão condecorado, logo não pode ter a doença dos fracos. Mas não é assim ….).
Recebemos, entretanto, a visita do Exmo. Sr. General Bettencourt Rodrigues. No encontro com o Sr. general disse-lhe que em termos tácticos estávamos a fazer tudo ao contrário, do que tinha aprendido na Academia Militar (AM), e do instruído aos oficiais e sargentos que agora estava a comandar.
Dava-lhe como exemplo o facto de transportar, numa zona de minas anti-carro, na viatura rebenta minas, uma velha GMS, dez ou 15 militares por falta de viaturas.Esperava uma frase histórica e galvanizadora de um general, recebi uma frase frouxa e burocrática, de que tínhamos de fazer a guerra com a escassez de meios que eu referia. Assim e só assim, um soco seco e mortal no estômago.
Não sabia,então, das negociatas com a UNITA, com esta a fazer a guerra por nós, podíamos passar ali umas férias, mas não havia bruxos. Foi este o meu baptismo, um frente a frente, sem tremer, nem pestanejar, perante um dos considerados Grandes Generais do Exército Português, então, não o sabia. Mas que pode saber destas coisas um alferes? Quase de certeza nada, mas fiquei vacinado, e esclarecido, isso sim.
Lumbala Velha era, de vez em quando, alvo de morteiros inimigos, pelo que, ainda, recebi um raspanete, porque um dos morteiros estaria mais chegado do que devia ao arame farpado, o que, para mim artilheiro, não era, assim, tão importante, como não fora para o capitão, mas como este tinha baixado à Psiquiatria, a sua organização do terreno e defensiva deveriam ter merecido depois cuidada atenção, que eu alferes, cheio de teoria e tino, não dei. Coisas!….
Depois deste encontro recebi guia de marcha para outra companhia do Batalhão, no Cavungo. Achei estranha a coincidência, mas como a minha tarefa era ser adjunto do comandante de companhia, acabei por achar que isto tinha alguma lógica.
Fiz por Lumbala algumas operações, cacei. Éramos reabastecidos por avião, quando não havia voos, faltavam os frescos, e, assim, para consoarmos em 1971 tivemos de caçar, caso contrário, seria arroz com salsichas.
Dei aulas regimentais, preparei fisicamente a equipa de futebol, tive de fazer frente a um soldado, o Sá, que ameaçava de morte toda a gente, talvez tivesse Stresse de Guerra (PTSD), mas ao confrontá-lo com o meu, ele deve ter considerado que o meu era pior que o dele, e passou a comportar-se bem. Enfim coisas!...
Gostava de estar com aquela malta, detestei a saída, e amaldiçoei a minha sorte. Depois de evitar a partida, lá tive de enfrentar a realidade e o 2º comandante que passo a apresentar:
Dia de Reis, 6 Janeiro 1972 " Farrapo de memórias:“
"Levantei-me pelas 8h, para ir falar ao 2º Cte do Batalhão, homem antipático, e muito pouco inteligente. Uma das grandes e muitas aber…… do nosso Exército. As suas primeiras palavras de boas vindas foram um raspanete (continua a ter muitos seguidores, exímios seguidores, brilhantes mesmos) por causa de não nos termos apresentado a sua Exa., aquando da nossa chegada na noite anterior.” ( extracto do diário)
Adeus Lumbala Velha. Até amanhã companheiros no Cavungo.
andrade da silva
Fim do 2º texto