A propósito da desocupação de um " bairro de lata" na Amadora e do texto de Marília Gonçalves.,que agradeço.
Ter uma casa condigna, não um musseque (vi-os em África), não viver entre madeiras latas e vermes,é um direito humano universal, e, no caso português, um direito de Abril e Constitucional, que o governo, os municípios e nós cidadãos já devíamos ter resolvido há muitos anos, e digo-o também como técnico, a minha licenciatura a isso me obriga, não por vaidade, mas por dever deontológico, e porque paguei bastante e estive 5 anos numa universidade para me licenciar em sociologia urbana, onde, estudei as politicas urbanas do PS de Paris, e no terreno das Câmaras de Almada (APU) e Oeiras (AD) nos anos 80, e, disso tudo resultou o saber de que obrigatoriamente as câmaras tinham de aprovar um plano de urbanismo - O Plano Director Municipal - e que este documento depois da discussão pública e da sua votação na Assembleia Municipal seria um código ético e jurídico blindado, de cumprimento inexorável.
Ora nestes PDM tem necessariamente de estar o que fazer, e como fazer com os incorrectamente chamados bairros de lata, porque se são de madeira cartão e lata, não são bairros nenhuns, são lugares de desterro, como escrevi há dois anos sobre Marrocos, que,de um modo global, considerei um campo de extermínio a céu aberto, logo, quando alguém me agride por ser contra estes lugares e a favor da habitação condigna, só o pode fazer porque é indigno, um coiote fascista ou coisa similar, como infelizmente aconteceu na discussão, no facebook, a propósito de um caso ocorrido na Amadora.
Andei no pior desses lugares entre 1967-69, na Falagueira. Conheci aí um homem de 80 anos alegre, corajoso, um verdadeiro herói, que me ensinou que o que lhe dava força eram as cabeças de alho que conservava creio que em álcool, do que tinha frascos. Ele parecia feliz, mas eu, por ele, sentia-me infeliz.
Depois voltei a atravessar este lúgubre lugar, diariamente, desde 1985 até ao seu fim, conheci alguns dos seus moradores, sou amigo de famílias desses bairros que desde 1990 me tratam pelo João, em Portugal ou quando me cruzo com os que emigraram para a Bélgica. Já não vivem neste lugar que é hoje um jardim, e porque a Câmara PS fez esta obra dei- lhes o meu voto na 2º Eleição, se tivesse adivinhado dava na 1ª.
Não conheço o Presidente da Câmara, vi-o em sessões de Abertura Da Escola Politécnica Superior o Exército. Nos últimos anos ouvi rumores, de dentro e fora do PS, discordei de algumas obras como do parque Central, todavia, hoje, vejo muitos pobres, idosos e crianças a usufruírem daquele espaço, que nesta fase de espoliação a que estamos a ser sujeitos tem sido um balsamo.
Nunca esquecerei os que fazem algo pelos outros,sejam comunistas, socialistas ou outros, sou assim, sempre fui assim, e assim hei-de ser.
Todavia não tenho duvidas se houver crime, se houver desumanidade a obra feita tem de ser considerada, mas o crime ou a imoralidade têm de ser julgados nos tribunais e nas urnas, e aí o meu voto nunca será dado a um preguiçoso, ou a um que não cumpra com os seus deveres de autarca.
Mas claramente não aceito que só se fale deste problema português,- mas também mundial, em Bombaim, capital financeira da Índia, vivem mais de 2/3 da população em antros deste tipo,- somente quando há policias e dramas muito graves por perto. Este e outros problemas têm de estar na agenda diária dos autarcas, deputados, militantes e cidadãos.
Não ignoro e sei, alguns habitantes destes lugares o confessam que preferem, viver nestes sítios, onde,os sentimentos e os afectos positivos e negativos circulam, a habitarem prisões verticais, em que ninguém convive, com ninguém.
Sendo madeirense tendo vivido até aos 20 anos em moradia e a minha família até há poucos anos atrás, sei quanto é doloroso passar a viver em apartamentos pelo isolamento, o que tentei cortar, no edifico que habito, quando fui administrador do prédio, mas só consegui realizar um encontro na sala de condóminos com muito poucos. Esta é uma triste realidade que afecta muitos, mas não nos pode fazer descansar, ou olhar para o lado perante esta realidade que exige uma solução social ,politica e humana,
Estes lugares, que não são bairros nenhuns, são um tumor social, urbano, sanitário e de segurança física, mas também em caso de catástrofe e,ou incêndio e,ou epidemia para os que lá vivem e para os demais.Estes lugares são um bomba espoletada pronta a rebentar em termos biológicos, mas também sociais e de segurança.Estes lugares ou outros, onde, a policia não circula, podem servir de santuários, catedrais, capelas ao banditismo, isto é, um dado policial, ponto.
Aligeirar esta análise multidimensional, atirar-se contra quem condena a falta de resolução e luta no QUOTIDIANO, desde o 25 de ABRIL 74, pela extirpação das causas de escravatura que levam a estas situações, mas também pela requalificação destes espaços é um acto que considero próprio do nazismo-fascismo revisitado, a lembrar-me a ignorância sobre os guetos de judeus.... enfim há coisas que nunca passam.
Todavia, a agenda do quotidiano deve voltar a ser ocupada com o discurso e a narrativa da ingente defesa da: Habitação,do pão, do trabalho, da liberdade e da segurança, e todos devem estar alerta para comportamentos extremados de ódio,raiva, totalitarismo, venham eles donde vierem.
Um país não pode nunca ser entregue a totalitários, falem com palavras doces, mas com sentimentos de ódio e morte, ou com as palavras e narrativas ou relatórios contra as pessoas falsos e ficcionados de puro delírio criminoso, como fizeram os Inquisidores, A PiDE e todas as policias criminosas dos regimes ditatoriais ou semi-democráticos.
andrade da silva