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domingo, 29 de julho de 2018

15 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Na Linha Ferroviária do Sul


FANTASMAS DA MEMÓRIA
.
NA LINHA FERROVIÁRIA DO SUL

Ponte ferroviária sobre o Rio Xarrama
(Foto Internet, com a devida vénia)


1.
Todas as semanas fazia aquelas viagens nocturnas: sexta-feira à noite para baixo; domingo à noite para cima. Ia e vinha no então chamado comboio-correio. Sem pressas, este comboio parava em todas as estações e apeadeiros. Era reduzido o movimento de passageiros subindo e descendo, mas era um tanto agitado o movimento de mercadorias. Eu sempre estava atento  quando, no sentido descendente,  chegava à estação de Casa Branca: aí era a corneta anunciando a partida iminente do comboio e logo após o aviso gritado ---  partida para o Algarve! Toda a gente, respeitando a orientação Norte-Sul, dizia vou para cima ou para baixo.
Nas noites de luar, quando em sentido descendente, eu ficava olhando o exterior, logo à saída da Estação Ferroviária de Casa Branca. Sentia um fascínio muito grande pela ribeira de Papa Galos e pelo rio Xarrama. Daí o meu persistente desejo de ver e rever as suas águas quando o comboio os cruzava. A ribeira de Papa Galos, cujo curso vai de Ocidente para Oriente, é afluente do rio Dgebe e este é afluente do  Odiana, o meu muito amado Odiana, rio mítico onde mais tarde seria construída uma barragem que é ou será o maior lago artificial da Europa --- a Barragem de Alqueva. A Barragem de Alqueva é uma das esperanças de uma significativa área do Alentejo devido à irrigação que pode proporcionar. O Xarrama corre de Nordeste para Ocidente e é afluente do Sado, rio inteiramente transtagano, que vem da Serra da Vigia, a Sul, e faz o seu trajecto para Norte até mergulhar no Oceano na nossa perdida Setúbal. E digo nossa perdida Setúbal como cidadão transtagano. Esta linda cidade marítima foi extorquida ao Alentejo, vá lá o Diabo saber o porquê, mistério insolúvel / aberração instalada que parece ninguém incomodar, da lavra de iluminado(s) que não sei identificar --- ah, as coisas que eu não sei! --- até porque Setúbal continua capital de um distrito que inclui vários municípios transtaganos.
No sentido ascendente, quando regressava a Lisboa, sentia o mesmo fascínio pelas águas. Quando comboio partia da estação de Viana, ficava esperando pelo Xarrama. Tantas saudades daquelas águas, nas quais ensaiei as primeiras braçadas da minha incipiente condição de nadador e alimentei o meu sonho irrealizado de marinheiro!  Logo a seguir à estação de Alcáçovas, lá estavam as águas da Papa Galos me esperando…

2.
Dizia-me um amigo e primo já falecido: oh, parente, tu tens uma situação mal resolvida com o Guadiana e tanto assim que insistes em chamar-lhe Odiana.
Eu olhava-o, sorrindo. Quando ele nasceu, eu tinha quase dez anos. Andei com ele ao colo. Ele sabia o muito carinho que eu tinha por ele. E pacientemente eu lhe respondia sempre o mesmo: parente, tu sabes que eu tenho uma predilecção por Espanha. Tanto assim é que, em Espanha, eu nunca me senti estrangeiro, apenas sinto estar numa terra vizinha da minha. Afinal, para cá dos Pirenéus, nós somos todos Iberos ou Hispanos e muitos outros de nós ainda sefarditas e/ou andalusis,  mas eu não gosto nada de imposições e submissões. Em Portugal temos várias palavras com a mesma raiz: Odiana, Odeleite, Odemira, Odivelas, etc. E diz quem sabe dessas coisas da etimologia que a palavra árabe Uad (curso de água) entrou no português como Ode e no castelhano entrou como Guad. Em rigor, o português Odiana ou o castelhano Guadiana significa Rio Ana.  E também sabemos que a palavra castelhana Guadiana entrou (à força?) no idioma português depois de 1580, data em que perdemos a independência. Ora, eu até posso entender que durante os sessenta anos de soberania espanhola tivesse ocorrido esse desmando, mas já não entendo o porquê desse desmando de soberania espanhola prosseguir e se enraizar desde que recuperámos a independência nacional, em 1640. Passaram centenas de anos e continuamos assumindo uma palavra estranha e simultaneamente desprezando e relegando para o arquivo dos arcaísmos a nossa muito nossa palavra Odiana.

3
Os anos passaram. Agora, definitivamente nas pátrias terras transtaganas, mais só e chorando as perdas inerentes à nossa condição de existência efémera, perco-me e encontro-me nas recordações. Sei que sem memória nada somos, sei-o por experiência. Igualmente sei que muita gente vai considerar saudosista este texto e outros semelhantes. Não penso assim. Textos deste género apenas fixam no papel momentos de uma existência. Momentos merecedores de respeito, de compreensão e consideração, pela meridiana razão de que a vida merece respeito, a vida em si mesma. O que fazemos da vida ou o que fazemos na vida são patamares diferentes, estes passíveis de outras leituras, de outras interpretações, de outros juízos de valor.


José-Augusto de Carvalho
28 de Julgo de 2018.
Alentejo * Portugal


sábado, 24 de março de 2018

15 - NA PALAVRA É QUE VOU... ' A fisga


(Histórias de um tempo perdido para sempre)

A fisga 



O Lourenço jogava ao berlinde e ao pião, como todos os rapazinhos da sua idade, mas não usava fisga. Um dia, quando regressavam da Feira anual, um seu colega de Escola, o Anastácio, quis saber:

--- Lourenço, por que não usas fisga?

A resposta foi seca:

--- Não uso porque não quero.

Anastácio não aceitando a resposta como esclarecedora, insistiu provocante:

--- Tu não sabes atirar, é por isso que não tens uma fisga.

Lourenço olhou interrogativamente o colega e precisou:

--- Eu não disse que não tenho uma fisga, eu disse que não uso fisga.

Anastácio ficou calado, perplexo. E Lourenço, friamente, clarificou:

--- Tu perguntaste por que não uso fisga e não se eu tenho uma fisga.

Anastácio compreendendo o ardil em que caíra, tentou sair dele com um desafio:

--- Se tens fisga, sabes atirar como nós sabemos…

Lourenço acenou que sim com um movimento de cabeça.

Nesta altura da conversa todos pararam na expectativa do que se adivinhava. E o que se adivinhava chegou quando Anastácio lançou o repto:

--- Se sabes atirar, vamos ver qual de nós dois tem melhor pontaria.

Lourenço encolheu os ombros, com indiferença.

Anastácio concretizou o repto:

--- À melhor de cinco fisgadas. Quem perder tem direito a desforra. Se houver empate, uma terceira série de cinco fisgadas decide o vencedor.

Todos concordaram à excepção de Lourenço que de novo encolheu os ombros num sinal evidente de indiferença.

Foi fácil a escolha de um alvo --- uma rolha de cortiça colocada numa das muitas fendas de um muro não rebocado de uma horta. Os atiradores alvejariam a rolha a vinte passos de distância.

Lourenço propôs usar a fisga de Anastácio para ficarem ambos em total igualdade. A proposta foi aceite. Por sorteio, Anastácio seria o primeiro a alvejar a rolha.

Pouco demorou a recolha de projécteis, pequenas pedras escolhidas no chão, arredondadas e de dimensão um pouco inferior â de um berlinde.

Anastácio era conhecido de todos como um bom atirador de fisga; Lourenço era para eles um grande ponto de interrogação; não tinham memória de o ter visto com uma fisga na mão.

Anastácio cumpriu a primeira série de cinco fisgadas. Acertou quatro vezes. Era um bom resultado.

Todos os olhares se concentraram curiosos em Lourenço. Que iria suceder?

Lourenço acertou as primeiras quatro fisgadas e olhando fixamente Anastácio disse:

--- Pronto, empatámos.

Surpreendidos, todos disseram:

--- Lourenço, ainda te falta uma fisgada…

Lourenço encolheu os ombros e justificou:

--- Pode ser, mas eu devo errar a rolha, não vale a pena arriscar. Está bom assim, empatámos.

Anastácio ficou apreensivo. Afinal, Lourenço o surpreendera. Era um bom atirador de fisga e agora até recusava a possibilidade de vencer; mas a sua ânsia de superação prevaleceu e aprestou-se para a segunda série de fisgadas.

Uma dúvida assaltou os demais colegas: seria que Lourenço não queria perder mas também não queria ganhar para não desgostar Anastácio?

Os dois atiradores ocuparam os seus lugares para a segunda série de fisgadas.

Anastácio repetiu o resultado. Errou de novo a primeira fisgada e acertou as quatro restantes.

Havia ansiedade evidente em Anastácio e um mal-estar contido nos demais.

Lourenço atirou certeiramente quatro vezes e entregou a fisga a Anastácio.

--- Toma lá a tua fisga. Já chega de fisgadas, ficámos empatados.

Todos ficaram calados, excepto Anastácio, que protestou:

--- Quem desiste, perde!

Calados, os colegas adivinhavam situação desagradável. Lourenço sossegou-os ao se dirigir ao adversário com um sorriso:

--- Está bem, Anastácio, tu ganhaste, és um bom atirador. Podes levar a taça.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 24 de Março de 2018.