sexta-feira, 15 de maio de 2009

EU, CIDADÃO-MILITAR, ME APRESENTO (I)

Povo-MFA

Nota Prévia:

Pretendia publicar os meus apontamentos da guerra, escritos em 71/72, em Angola, no blogue Avenida da Liberdade, da Associação 25 de Abril, mas o vírus da liberdade calou aquele blogue, num belo dia de verão e de boa memória para Lisboa, 13 de Junho de 2008, assim se fazem as coisas e, por isso, retomo, agora, o projecto neste blogue para o levar até ao fim, num tempo que muitos falam do hoje para o ontem, mas poucos do ontem para o hoje. Vou fazer este caminho, talvez dê um contributo para que uns e alguns outros compreendam que a natureza humana sendo una tem cambiantes, quiçá não genéticas, mas morais.


DEDICATÓRIA: Esta pequena história de uma vida dedico às almas inflamadas pela sua vida, mas também pela vida dos seus companheiros destes caminhos que, como caminheiros, vamos fazendo.

Introdução


Eu, cidadão-militar, humilde, sem jeito e saberes me apresento entre galões e doutos licenciados e doutorados nas artes das escritas, em termos de honestidade, amizade, para vos contar a história de uma vida que teria de levar ao 25 de Abril, ao PREC, à Reforma Agrária e a muitas outras lutas sociais no Alentejo e demais coisas como a deportação para a Madeira, a 18 meses de prisão - na prisão da Trafaria, onde, em 25 Abril, ajudei a libertar os camaradas presos do 16 Março 74, seguidos de 6 anos de julgamento no Conselho Superior de Disciplina do Exército e de 8 dias de detenção no Forte do Alto Duque, sede do anterior COPCON- as tais contra-curvas da História -.

Que vale esta história? Muito ou nada: muito para os amigos e os que gostam de saber um pouco sobre a vida das pessoas comuns, nada para outros. De qualquer modo este é um acto de amizade, um simples currículo alargado.

1 – ATÉ À CHEGADA AO TEATRO OPERAÇÕES (TO ) ANGOLANO

Eu, cidadão-militar, Andrade da Silva, juro pelo que de mais sagrado há, que nunca tirei nenhum curso de feiticeiro ou de bruxaria, e que nunca pertenci a partido nenhum, nomeadamente ao PCP, refiro este partido, porque a 1ª Repartição do Estado Maior do Exército, em 1976 disso me acusou, mas fui e sou amigo de muitos alentejanos que são ou foram filiados ou simpatizantes do PC. Vá lá saber-se porquê.

Pode ter havido pelo Alentejo “escolinhas de radicais” do PCP, mas eu nada tenho a ver com isso, porque, como digo, já de seguida, nasci na Pérola do Atlântico.

Nasci na Madeira em 1948, a 9 Maio, dia da Europa. Cursei o ensino secundário, alínea F, fui um aluno com média final no 7ºano de 14 valores, com 19 a Filosofia e 9.5 a Matemática.

Em 1963 perdi o meu pai, capitão do Exército. O regime tratou muito mal a minha família.

Desempenhei funções de Comandante de Bandeira da Mocidade Portuguesa, onde, por defender o meu comandante, do arbítrio de um director tive um processo disciplinar, e fui suspenso antes daquele.

Quando confrontado com a expulsão do meu comandante, de quem não era amigo pessoal, sendo eu o 2º comandante, disse ao dito Director que sairia pela mesma porta e hora que o meu comandante. Sai antes. Fui expulso, logo ali, de um modo expedito.

Na véspera este Director tinha-me chamado um às, mas que tinha um feitio que me ia trazer grandes problemas. O grande F… da P…, como todos os F…P… com poder, era bruxo. Acertou em cheio. Eles têm a capacidade de torcer o futuro às pessoas, e, assim, esses azares começaram logo no dia seguinte, ainda era manhã.

Esta expulsão expedida causou-me problemas muito graves a nível do liceu. Vi-me obrigado a dizer que recorreria aos tribunais, porque não me queriam passar o diploma do 7º ano, para concorrer à Academia Militar. O reitor do liceu era o Delegado Regional da Mocidade Portuguesa, naqueles tempos o poder era totalitário

Fui também chefe da Juventude Escolar Católica, onde, cheguei a Secretário Diocesano, fiz dois cursos de cristandade, nunca fiz nenhuma confissão em público.

Guardo como boa recordação destes tempos, os meus colegas, e os chocolates do padre Vidal. Nestas andanças conheci o cónego Maurílio, hoje, bispo de Évora, que já deve ter excomungado o meu nome, obviamente, se a minha pessoa lhe merecesse alguma atenção, o que, é suposto não acontecer.

Deixei a Igreja Católica, quando percebi que naquela comunidade os filhos dos ricos eram mais filhos de Deus do que os outros. Nunca suportei a discriminação, feitio do diabo, muito comum a quem não nasce rico, e não sabe dobrar a espinha. Aprendi com o meu pai e a minha mãe, a lutar sem medo. Havia naqueles tempos gente assim, apanhei-lhes o jeito. Quanta dor evitável?!...

Depois ingressei, em 1967, na Academia Militar, fui para o curso de Artilharia, ocupei no 1ºano o lugar de charanga (o último) e no fim do curso era o de penico (o 1º lugar). Terminei o tirocínio em 2ºlugar.

(Fui para a Artilharia, mas sempre me senti infante, só que o curso de Infantaria na AM, era para mim, como curso superior, uma coisa deprimente, era correr 30Km, depois mais 20Km, cair morto e rastejar, já morto, 2km sobre terreno pantanoso e pedregoso.

Este modelo de curso era inaceitável para quem trazia colado à sua pele o rótulo de intelectual que lhe foi posto pelo professor mais rigoroso de toda a história liceal do Funchal, o Dr. Camacho, Prof. de matemática que promovia uma taxa de reprovação da ordem dos 70% ou mais).

Fim 1º texto, continua.

PS :
Peço desculpa, mas lá vai agora a história da foto. Estava eu no Cruzamento de Pegões/Vendas Novas numa actividade do MFA, havia por ali uma boda de casamento, soube-se da minha presença, logo o jovem casal quis bater uma chapa. Era assim.
Já mesmo depois do 25 de Novembro encontrei amigos que às tantas me levaram de Lisboa a Vendas Novas, quando ali chegava a desoras, toda a família se levantava e vinha falar comigo. Era muito estimado, e eu também muito os estimo.
Em média, publicarei 2 textos por semana ( quartas e sextas)

5 comentários:

Anónimo disse...

A aliança Povo-MFA! Ficas bem na fotografia. O problema é que o povo é uma massa amorfa (embora aqui pareça ter forma) e o MFA foi metido no formol. Mas cá fico à espera das tuas reflexões de guerra. Desde que as anunciaste que se me espicaçou a curiosidade. Ainda bem que as vais retirar do formol. Um abraço
luisladeira

Fernanda disse...

Gostei de ler. Espero curiosa o que se vai seguir
Fernanda Neves

Estela disse...

Ora aqui está uma inovação! Uma foto com menos uns aninhos!! Confesso que não o reconheci! É estranho...achamos sempre que os grandes seres humanos...sempre foram Grandes! Não o consigo imaginar com 4 ou 5 anos!!!....:)(adiante)
Vale de muito esta história, não duvide! Especialmente, porque nos transporta para uma outra epoca da historia deste pais, e nos ensina a conhecer um pouco mais do Ser Humano que é, de quem cada vez mais me orgulho de ter cruzado o caminho.
E olhe que a Artilharia assenta-lhe que nem uma luva! Sabe o que eles dizem dos artilheiros!! Boa escolha! :)
Fico ansiosa pelos próximos capitulos, e lanço-lhe um desafio: consegue explicar e distinguir onde é que acaba o militar e começa o ser humano? Ou não tem de haver diferença? Explico porquê; há um ex-militar que está a falecer... evita a medicação para a dor, considera que a deve suportar estoicamente, como sempre fez na sua vida militar (nomeadamente em Angola). Com dificuldade, compreendo e respeito porque fez essa opção. Mas pergunto: o que leva um ser humano, no final de vida, a querer reviver dolorosamente uma outra guerra da qual ja conhece o final?
Assim, se puder, diga-nos, como é que a vida militar muda as pessoas? Somos nós que escolhemos a vida militar ou é ela que nos escolhe a nós?
Seria diferente se não fosse militar? O que é que nos faz viver tanto tudo isto?
Desculpem lá o testamento!!
Estela Landeiro

andrade da silva disse...

Caro Luis
Querem que o povo seja uma massa amorfa, muitas vezes têm coseguido, mas nem sempre.Há dias emque é diferente.

Obrigada cara amiga Fernanda.

Landeira

O meu camarada terá de ser compreendido numa dimensão que não entendo que é o que fizeram dele.

Ele teria de desaprender tanta coisa que são capazes de lhe ter ensinado mal,para mim, como sabes, por debaixo da farda existe sempre uma mulhrer ou um homem, e é tudo, só há uma realidade a humana, a mulher ou homem.

O que têm feito de tanta gente boa!Os militares não têm de sofrer mais que os outros têm até de evitar a dor,mas quando a têm de suportar devem procurar ser dignos como os outros e a devem suportar ainda com maior estoicismo se forem os comandantes.

Sim o nosso camarada precisava de desaprender tanta coisa para reaprender como diz Peaget,mas talvez seja demasiado tarde,mas se servir para alguma coisa diz-lhe que grandes heróis de Africa que suportaram em campnaha grandes dores sempre cuidaram da saúde e fizeram os tratamentos, porque de facto esse até o cumprimento de um dever militar,cuidar da saúde, mas sempre dá-lhe uma abraço camarada e diz-lhe que também conheci Angola e que não é só dor,tsmbém é alegria e merengue.

Um grande abraço acompanha-o com todo o carinho de que és capaz.
asilva

Estela disse...

De facto, é tarde para reaprender tanta coisa que foi mal aprendida... mas fico feliz, porque finalmente, está a aprender a perdoar-se a ele próprio por tudo o que se privou de viver...percebeu que poderia ter escolhido outro caminho...mas as escolhas têm disto...nunca saberemos como teria sido esse outro caminho...tristemente, o medo de ter medo da noite continua a acompanhá-lo...
Parece que o outro senhor tinha razão: "You never know what is enough unless you know what is more than enough"...
Beijinhos,
Estela Landeiro