domingo, 4 de outubro de 2009

Bilhete que é sentimento e não é poema.


JAZO

“ Velhota amiga, Melânia, como vês no teu funeral também morri. Tive dor pela tua morte, mas, egoistamente, senti muita pena da minha. Perdoa-me, mas seria hipócrita não o confessar, e sabes que cínico e hipócrita não sou. Finalmente descubro que sou mais egoísta do que pensava, mas sempre soube que era humano.
Todavia além da natureza humana tínhamos em comum o amor pela vida, no teu caso vida simples e muito acompanhada por danças e dançares e gente genuinamente amiga, todos te acompanharam. Descansa.
Derramo uma lágrima.”



Jazo,
Frio,
Hirto,
Em pobre caixote.
Só, pobremente,
À terra rasa,
Desço, chorando,
Por tanto amar
A vida.
Tenho pena da minha morte,
Mas tudo cala:
A vaidade, o orgulho,
A dor, a mágoa,
As pás de terra,
Sem jeito e sem alma
Que, lentamente, escurecem
A luz das auroras.
Morri.
Cumpriu-se o destino.
Só, somente só,
Como sempre,
Jaz
Quem tanta paixão
Sentiu por ser.

andrade da silva

set 09

6 comentários:

Anónimo disse...

Como sempre, nas suas mensagens, Andrade da Silva, espelha os seus sentimentos aliados à verdade. Curiosamente, transmite o que todos sentimos, mas que por falta de coragem ou de saber expressá-lo calamos no nosso coração.
Obrigada. Um abraço
Maria José Gama

andrade da silva disse...

Maria José
Um grande abraço.
Nós morremos devagar, ou mais depressa com os nossos mortos e com a morte dos nossos amigos também choramos a nossa própria morte, senti-o,desta vez, a mais idade, e o receio das muitas mortes que ainda temos de enfrentar, no meu caso perdi no dia 24 de Setembro um camarada, ainda novo, há dias a Melania, a caminho de outra viagem sem retorno está outro amigo e não muito longe a minha mãe que morre de Alzheimer, onde, tão pouco a medicina avançou, infelizmente prolongou-se a esperança de vida, mas, em sentido contrário, decorreu, em muitos casos a qualidade, de vida,e, neste caso, muito particularmente para os pobres e com menos recursos,porque os Hospitais Públcos, e, concretamente, o Curry Cabral não respeitam a dignidade humana de um doente terminal.
abraço e obrigado.
asilva

Fernanda disse...

Lindo, terno mas também triste o seu poema. Li-o várias vezes. È um privilégio saber escrever oque sentimos, seja alegria seja tristeza. obrigada pela emoção que me fez sentir. Fernanda Neves

Ana Daya disse...

Tristes, mas belas palavras as tuas!
Intrinseco e sensivel como os sentimentos q acabaste de exprimir... passam ate ao intimo de quem te le!
Fiquei a pensar na morte com uma perspectiva nova e com ideias mais claras sobre o que se sente.
Obrigada
Ana Rute

andrade da silva disse...

Caras Fernanda, Ana, Maria José todas as amigas e todas as mulheres

Pré-Experienciar a vida, a morte é sobretudo um sentimento, na minha opinião, do cromossoma x, por isso, as mulheres ( vós sentis)sentem tudo isto duplamente, bastaria numa só dose, por isso, compreendo-vos e vos amo muito.

A morte dói, muito, muitíssimo, por isso celebremos a vida.

Obrigado também em nome da Melânia

beijos do vosso
joão

andrade da silva disse...

Aqui volto para vos dizer que não me canso de reler este bilhete, porque é pele de mim e de quantos mais?

Chorar, como se orvalho seja, é uma experiência impar que trás no seu ventre o dia radioso.

Um beijo amigas

joão