sexta-feira, 10 de setembro de 2010

25 de Abril Sempre


Não vou Dizer de Abril o que foi Dito


Não vou dizer de Abril o que foi dito
Nem dos cravos direi o que serão
Que foi a Liberdade e é Infinito
E é perfume a pétalas de pão.

Não vou dizer de Abril o que Abril sabe
Nem dos Homens de Abril digo quem são:
Uma explosão da luz que o sonho invade
E transforma as ruas em canção.

Não vou dizer de Abril (faltam fonemas)
que Abril teve um só nome: Portugal
dizer que se rasgaram as algemas
é ficar muito aquém de quantas penas
findaram num país de sangue e sal.

Não vou dizer de Abril quanta tortura
O povo viu ceder nesse arraial
Quando se ouviu cantar quem mais ordena
São os filhos do povo em Portugal!

Não vou dizer de Abril de ideia aberta
Que esse céu mais azul, Abril o fez
Que cada encontro era uma descoberta
E renascia o povo português.


Não vou dizer de Abril cada fronteira
Esboroada no longe, na distância
nem que ali começava a terra inteira
e que o Mundo estava na Infância.

Abril começava o novo verbo
Articular de mãos gesto fraterno
Como voz infantil que num caderno
Escreve a frase final:
Fim do Inverno!

Marília Gonçalves

6 comentários:

Marília Gonçalves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marília Gonçalves disse...

Carlos Domingos - Canção de Alandroar


CANÇÃO DE ALANDROAR

(Poema dito em4 de Outubro de1986 na escadaria do castelo de Alandroal perante uma audiência de centenas de pessoas)


Aquela branca flor de alandroeiro
era a única luz do alandroal.
Nem a lua rompia o nevoeiro
nem o sol punha um riso matinal.

Ali reinava a treva o dia inteiro.
Ser de noite era um estado natural.
Não duravam as flores no canteiro
e apodrecia a água no canal.

O vento ameaçava, em tal berreiro
que tremia de medo o canavial.
Trovejava o relâmpago certeiro
zunindo como um látego infernal.

Tal o rancor, o ódio verdadeiro
a abater-se em torrente no local,
que até mesmo o impávido coveiro
pedia ajuda aos mortos do coval.

Mas o povo sorria, prazenteiro,
numa beatitude divinal.
Bailava e patinhava no lameiro
indiferente aos dentes do chacal.

Os homens riam com olhar rafeiro
e as crianças, em saltos de pardal,
vinham brincar com ossos no palheiro
e mascarar a dor de carnaval.

Foi quando rebentou a flor. Primeiro
era um botão, um tópico, um sinal.
Depois desabrochou e, logo, um cheiro
a espaço aberto dominou o vale.

Vieram as crianças a terreiro
entoando cantigas de natal.
Veio o pastor, o cavador, o oleiro,
o almocreve, a ceifeira, o maioral.

Uma flor branca abriu ao povo inteiro
o clarão de uma esperança universal.
Amainou a água turva do ribeiro,
deixou de ser agreste o matagal.

Estoiraram foguetes no outeiro,
repartiu-se irmãmente o pão e o sal.
Já se apertava o braço ao companheiro,
abriam-se olhos negros no olival.

Eis que, lá longe, surge um cavaleiro
galopando veloz, branco de cal,
num corcel negro a deslizar ligeiro
como núvem em pleno temporal.

Aproxima-se mais o viageiro
(esqueleto emergido do coval).
Traz na boca um sorriso traiçoeiro
e, a tiracolo, o ódio no bornal.

Desembaínha um arrepio. Ligeiro
esconde-se nas sombras de um portal.
Desfere um golpe. E a flor do alandroeiro
cai, desfeita de dor, no lodaçal.

Um grito de alma ecoa no terreiro.
Um pesadelo instala-se, brutal,
quando a flor branca rola no ribeiro
e parte, envolta num palor mortal.

No mesmo instante, a meio de um junqueiro,
brota uma flor de sangue, sem igual.
Desde esse dia de ódio derradeiro
nunca mais ninguém riu no alandroal.

Carlos Domingos

andrade da silva disse...

lindo
Fim do Inverno
A luta sobe de nivel, o sindicato da PSP diz ir para a frente do Ministério e de lá não sair até a questão ficar resolvida. Penso que o ir e vir pode não resolver, por isso, talvez montar arrais seja a solução
asilva

Pierrot le Fou disse...

Sem querer ofender os profissionais da Polícia de Segurança Pública, parece que, as limitações do sindicato da PSP revelam a já conhecida posição dum sistema que mais parece uma empresa de segurança autoritária conveniente, de subserviência do poder legisativo (variável, conforme os humores...).

Abraço,

Pierrot le fou

andrade da silva disse...

Caro Pierrot e demais leitores

As forças de segurança e os militares pelas graves limitações constitucionais à liberdade e outras garantias tinham de ser muito, muitíssimo mais respeitados do que são.
As suas organizações profissionais deviam ser muito mais ouvidas pelas respectivas hierarquias, governo e a sociedade em geral. Quando se pensa que um coronel que pode comandar de 300 a 600 homens, um regimento, coisa ao nível do director de uma grande empresa, ganhando este de 10 mil a 50 mil euros ou mais, e aqueles 2000 euros/mês, estamos falados, embora se possa acrescentar que desde 1989 os militares, se afastaram dos seus grupos de referência, os juízes, estando hoje os militares no meio da tabela dos juízes. Face a estes factos que mais dizer.

claro que como é óbvio num país com o salário mínimo que tem, com o médio ao nível dos 600 euros, não faltarão os que vêm num vencimento de 2000 euros um ordenadão, mas claro que as comparações têm de ser feitas entre grupos profissionais equivalentes, e quando, como ni caso dos policias e militares tem funções internacionais é muito complicado que as mais altas patentes ganhem menos que os de mais baixa patente dos Exércitos ou policias aliadas.

Obviamente que o problema dos policias e dos militares arrastam-se há décadas, dos militares desde 89,ora por uma razão, agora por causa da crise, nunca se resolve nada, o que é uma irresponsabilidade politica grave.
abraço
asilva

andrade da silva disse...

Alandroal

Terra onde passei muitos dias, na casa, da familia galhardas a que pertense a mãe do meu filho, nas redondezas do Castelo, junto à caixa geral de depositos, e como gostava de ouvir os sinos da torre, a marcar a passagem do tempo.

Fiquei a conhecer a cor da flor de alandroeiro, pelo poema. Abraço para ti Domingos.