
( A minha mãe representa com a sua força - a força de uma mulher heroica do povo - a razão de ser Povo, frente ao cinismo e cobardia das castas.
Este café frente ao Forte ocupei-o, em 25 de Abril 74, com a força que comandava, para libertar os meus camaradas presos no 16 e Março 74, entre eles, os então, tenente -coronel Almeida Bruno, Major Monge e Capitão Varela... coisas...)
A propósito da partida, para a Terra da ESSÊNCIA de Nápoles Guerra, desci ao labirinto do meu diário de prisão a ver se encontrava pistas para dar a conhecer melhor quem foi Nápoles Guerra, infelizmente a nota que encontrei foi a dar conta da sua ausência em dado período da minha prisão, mas deve ter sido um lapso temporário. Todavia a minha homenagem vai para o capitão de Abril e o homem que julgo bom, e é tudo.
Todavia nesta descida àquele labirinto, onde, faço análises ao governo do PS com o CDS e ao discurso apologético de Mário Soares ao patriotismo daquele governo para executar os programas do FMI. Olho para os tempos de hoje e vejo, de algum modo, concretizado os pensamentos que ali escrevi, e que previam a hecatombe de hoje, é certo, que não num prazo tão dilatado, mas na essência está tudo aí, e sobretudo na Europa.
( Mas que economia é esta, que basta aprovarem -se na Grécia umas leis de austeridade que até este momento só provocaram porrada nas ruas da Grécia, e já as bolsas dão indicações de uma economia a crescer, saudável, quando o que houve foi aumento da despesa com mais policias na rua, feridos, presos, vitrinas partidas, pedras das calçadas arrancadas etc.? Mas que economia mundial é esta?)
Mas também nesta descida descubro tantas cumplicidades nos julgamentos surrealistas que se fizeram no fascismo e depois do 25 de Novembro 75, no meu caso entre 1976 e 1978.
No meu julgamento, no 3º Tribunal Territorial de Lisboa, o seu Juiz presidente, o Coronel da Força Áerea Cruz Novo, disse ao dr. Xencora Camotim e a mim próprio que eu estava inocente, mas que votou a minha condenação para travar a sanha de ódio e de vingança do Dr. Rui Gonçalves Pereira e do Cor. Machado.
Também o juiz vogal, Coronel Dantas, do tribunal Militar em que era juiz auditor o Dr. Barata, disse-me que o meu caso era considerado por aquele juiz, como um incidente tipico de legítima defesa, e que nunca poderia ser condenado por agressão física, quando me defendi de um bando de marginais, os diabos à solta, no Funchal, em Abril de 1976. Todavia fui condenado a 18 meses de prisão e o país bem pensante, democrata e anti-fascista, de um modo geral, aceitou. Cúmplices.
Contudo, é interessante que numa das conversas que tive, então, com o Major Corvacho lhe perguntei, conforme está registado, se prendessem dado camarada, que lhe referi, o que fariam? Logo ele me respondeu que se fosse esse camarada que o povo se levantaria e nunca permitiria a sua prisão. Seria mesmo assim?
Mas se era assim para aquele, porque não agiu o povo do mesmo modo para com todos os perseguidos por o terem servido, quem o travou?
Também nesta altura o ministro da cultura Cardia visitou Edmundo Pedro, e depois de o visitar declarou que era o único preso politico no país. Errado. Na Trafaria estávamos uns quantos por razões dessa natureza, embora disfarçadas, como no caso do Edmundo Pedro que não seria por causa dos electrodomésticos, mas sim por uma dada quantidade de G3 que recebeu no 25 de Novembro 75 do Estado Maior do Exército, e que seriam bem mais que 150, conforme o ouvi no gabinete do tenente- coronel Fabião a um elemento de segurança do PS, envolvido no caso que, então, devia ser bem conhecido.
Orgulho-me de neste julgamento surrealista ter proclamado bem alto, perante um país indiferente à excepção de alguns e um tribunal que não queria fazer justiça, a minha inocência. Fi-lo em texto por mim escrito e publicado a páginas 91-102, do livro " A Legitima Defesa de um Capitão de Abril" de Manuel Geraldo , e, assim iniciava:
"NO RESPEITO PELA VERDADE, AFIRMO COM TODA A CLAREZA E COM TODA A FORÇA DA MINHA PALAVRA DE CIDADÃO E MILITAR QUE NÃO ME SINTO CULPADO. APESAR DE ESTAR NO MOMENTO PRESENTE NA CIRCUNSTÂNCIA DE RÉU. NADA ME ACUSA DE HAVER PROCEDIDO À MARGEM DAS LEIS MORAIS, ÉTICAS E NATURAIS A QUE, ENQUANTO HOMEM , ESTOU SUJEITO."
Mas o tribunal, perante a irrefutável e evidente prova da minha inocência condenou -me, e até uma boa alma foi capaz de dizer, à minha mãe, numa festa do Avante que a prisão em que estava não se aproximava dos tarrafais, o que muito a exasperou.
Mas mesmo sem ser o Tarrafal tinha muitas agruras, desde logo, as punições injustas de que me queixei e as provocações dos carcereiros que sempre que falava com alguém lá conotavam o acontecimento com um comício, e puniam os soldados que falassem comigo.
Também das condições diferenciadas que tinha na prisão dei conhecimento ao, então, general Vasco Lourenço, que considerou que as condições em que esteve preso antes do 25 de Abril , eram idênticas às minhas, logo nada fez. Entretanto, entre a sua prisão e a minha, pelo meio houve o 25 de Abril, mas claro também o 25 de Novembro75.
Entre outras misérias prevejo no diário que um dia chegaríamos aonde temos chegado e estamos a chegar, e refiro os que na minha opinião, por acção ou omissão, são os mais responsáveis e no meio deste estrume não posso deixar de referir gente que se vende, como um tal Guilherme de Coruche, o primeiro e maior impulsionador da nacionalização da Herdade da Agolada de Baixo de Sommer de Andrade, voltou-se , nesta altura, 1978, totalmente para o antigo Patrão.
Sommer de Andrade, aquando da transferência de propriedade ditou uma sentença que na altura, já sabia que aconteceria, tanto, como ele : " As forças Armadas levam-me a herdade. As forças armadas as me vão entregar". Sabia-o, considerava justo o acto da transferência, mas tinha a exacta noção de que nós, os que, andávamos nestas coisas nos tínhamos deslocado muito do nosso grupo de pertença, como militares, dos nossos camaradas que não nos acompanhavam e todos, estes militares e o povo alentejano, da generalidade do povo português.
Por acreditar na bondade do que fazia prossegui, mas sabia que não havia gente mobilizada para defender a situação emergente com o 25 de Abril, e, do seu fim. Fui avisado em Agosto de 1975, pelo major Gil que me dizia que ia ser tramado, acrescentando o major que como cidadão concordava comigo e como militar não.
Perante o seu dilema e o meu, aos 27 anos, optei por não abandonar o POVO, somente o POVO alentejano, que sempre me reconheceu, como um amigo fiel, apesar das miseráveis opiniões de alguns dos seus líderes de que seria esquerdista - esquerdista ou direitista uma ova - simplesmente, sou um servidor das Causas justas. Defendo-as sem quartel e sem bandeira partidária e muito menos sem vergar a cerviz a caciques. Logo um maldito.
Em Portugal, a independência e a liberdade são maldições. Experimentem ser livres, e logo verão os chacais, todos, a vos atacarem, mesmo que ainda ontem vos parecessem cordeiros. Puro engano, o DNA do vírus totalitário de Salazar ainda não foi derrotado.
andrade da silva