quarta-feira, 15 de abril de 2009

AS PEQUENAS COISAS, DA PEQUENA VIDA


Dedico a Maria José Gama, como histórias de embalar e votos de
franca recuperação. Grande Abraço a uma Grande Mulher-
Senhora."



Há dias um cronista escrevia que conhecera um Sebastião, um Homem invisível, daqueles que não têm abrigo e que ninguém vê. Este Sebastião tinha um cão, então, conta o cronista que perguntou ao Sebastião o que naquele momento o faria feliz. O homem respondeu-lhe que um a cachorro quente. Diz o escritor que ficou estupefacto com a falta de ambição do pedinte e logo satisfez o pedido.

Geralmente os pobres auto-conscientes e dignos contentam-se com pouco, e, por isso, nunca serão muito dados à corrupção.

Todavia ainda o aguardava mais uma surpresa. Quando deu o cachorro ao homem, este, logo tirou a salsicha e deu ao cão. Perguntou-lhe o cronista, porque fazia aquilo, ao que o pobre homem lhe respondeu que por uma questão de gratidão. Eles tinham um contrato implícito, quando ele, Sebastião, dormia o cão vigiava o seu sossego para que ninguém o incomodasse, e, quando, o cão dormia ele defendia-o dos outros animais da mesma espécie, ou de outra.

Esta simples estória lembrou-me outras de pessoas gratas aos seus animais que vou relatar-vos, nestes tempos ainda de ressurreição.

Uma delas aconteceu nos idos de 1975 quando um velhote se dirigiu de Coruche, à Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, uma lonjura dos diabos, para pedir a intervenção das Forças Armadas, do MFA, na busca do seu cão desaparecido. Fiquei surpreendidíssimo com o amor deste homem àquele cão, apesar de gostar muito de animais, até esta altura nunca me tinha apercebido que podia haver entre um humano e um animal um amor tão grande, uma verdadeira paixão, quase um amor de um pai para um filho

Tenho também uma irmã, a minha irmã Fátima que seria capaz de tudo hipotecar para alimentar os seus cães e gatos. Tem um verdadeiro espírito de militante defensora dos animais, e nesta cruzada contra o abandono criminoso e sádico dos animais arrastou o marido e, assim, ambos, já salvaram de morte certa muitos cães e gatos, alguns recolheu-os em casa, e outros fazendo verdadeiras peregrinações às serras da Madeira os tem alimentado.

Mas também não fico fora deste história, e vou contar-vos um pequeno episódio que muito me desgostou por revelar a total intolerância à verdade.

Num dado dia, há muitos anos estava num supermercado a comprar pescadinhas de rabo na boca, para cozinhar para o meu gato, quando uma me cai, e espontaneamente digo lá vai o peixe do gato, logo um pessoa idosa retorquiu: “Pois há muitos que dizem isso, mas depois é para eles que nada têm, além de que há muita gente com fome”.

Esclareci-a que tendo um gato tinha de o alimentar, e que por vezes ele comia bem melhor que eu, até porque desde sempre tive uma quadrissomia do cromossoma Y (YYYY) para a cozinha, nada me sai certo: derramo a sopa, bato com a cabeça no exaustor, parto a loiça, espalho tudo por quanto é sítio, metade dos nutrientes me fogem dos recipientes etc, e não me estou a arvorar em machista, porque da mesma inabilidade gozo para pregar um prego.

A senhora lá resmungou, ainda lhe perguntei se estava disposta a dar os restos da sua cozinha, não respondeu ao desaforo e o gato, de seu nome, o preto, que safei a morte certa na prisão da Trafaria, quando os nossos bons soldados, de brandos costumes, preparavam-se para matá-lo à paulada, lá foi comendo pescadinhas. Não havia ainda estas coisas modernas, dos enlatados etc.

Morreu mais tarde, num dia 21 de Março, e senti a mesma dor que aquele velhinho do cão, pela morte do meu gato, e sendo já homem endurecido pela vida, chorei copiosamente. Perdi no inicio daquela Primavera um grande amigo. Recordo-o sempre nos dias 21 de Março de cada ano, dia em perdi o meu grande e estimadíssimo amigo gato que, em 1977, partilhou, por alguns dias, a minha cela da prisão da Trafaria voltada para o mar, tinha 27/28 anos, 3 anos depois do 25 de Abril

Penso que é com estas pequenas histórias das nossas vidas que ressuscitamos todos os dias, por isso aqui ficam.

andrade da silva

terça-feira, 14 de abril de 2009






















Flor sem haste - Carlos Queiroz

Menina pobre, eu venho agradecer-te
Aquele sorriso bom que me inspiraste,
Quando te vi na rua e julguei ver-te
À flor dum rio, como flor sem haste.
Balouçavas as mãos, como quem vai
Numa estrídula marcha militar.
E um laço nos cabelos, cai-não-cai,
Fugia do compasso, a ralentar.
Passavas pelas montras, como se
Todas as coisas conhecesses bem;
Ou, para alguma teres, pensasses que
Bastaria pedi-la à tua mãe.
Séria. – Somente em teu olhar brilhava
Uma alegria de quem viu no céu
A nuvem mais bonita que lá estava
E o anjo que atrás dela se escondeu.
O que os outros pensaram dos teus modos,
Que importa? Nem teu nome ou tua idade.
Eu venho agradecer-te por nós todos
Essa lição de naturalidade.
Que tu nos destes, ó fresca flor sem haste,
À flor da rua, como á flor dum rio.
- Menina pobre que por nós passaste,
Que tanta gente olhou e ninguém viu.

segunda-feira, 13 de abril de 2009























Aragem

Pelos livros que me ofereces
ou a música inspirada
onde estão todas as preces
laicas e silenciadas...
por enviares da distância
imagens sons e história
por me devolveres infância
além do fio da memória;
porque meu irmão teu gesto
é seara sementeira
do tempo que ao passar lesto
lavra a palavra colmeia;
porque um enxame de luz
borboleteia pra mim
no desenho ainda azul
do nosso país jardim;
cada livro é o caminho
cada som é nova estrada
a escrever asa no ninho
na minha árdua escalada
onde vou subindo a gosto
mesmo se a custo, porém
vejo ardentias de Agosto
no Janeiro que aí vem.

Ai arte, ai cultura
ai livros vontade
palavras ternura
na voz da saudade.

Ai vento, ai maré
Ò ai, sementeira
pois ser-se quem é
é uma maneira
de rasgar distância
de abrir pensamento
de espalhar cultura
nas asas do tempo.

Pelos livros que me ofereces
esse baú de palavras
cofre de imaginação
é que acordo tantas vezes
a ver crescer coração!

Marília Gonçalves


domingo, 12 de abril de 2009

ALEGRES FESTIVIDADES e BOM DOMINGO
















POESIA




Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

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de: Raul de Carvalho




Coração sem imagens

Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens
Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica. Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu. Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém. Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te. Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei. Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti. E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz


sábado, 11 de abril de 2009

O REGRESSO DO MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar.


FERNANDO PESSOA, Mensagem



O mostrengo não está no fim do mar.

Ocupa as ruas, bate à nossa porta,

vomita chamas na cidade morta,

escreve garatujas no luar.

Ei-lo que espreita em cada patamar

pronto a saltar-nos à garganta. Importa

lançar brados de alerta à malta absorta

que se deixou nos ventos embalar.

De pé! O monstro volta! Unir fileiras!

Deixemos as diferenças das bandeiras:

É preciso avançar em marcha unida.

A nossa força é sermos um só povo

e uma só terra a defender de novo.

A morte do mostrengo é a nossa vida!



Carlos Domingos

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Poeta Libertador dos Escravos


Castro Alves


A mãe do cativo





Ó mãe do cativo! que alegre balanças
A rede que ataste nos galhos da selva!
Melhor tu farias se à pobre criança
Cavasses a cova por baixo da relva.


Ó mãe do cativo! que fias à noite
As roupas do filho na choça da palha!
Melhor tu farias se ao pobre pequeno
Tecesses o pano da branca mortalha.


Misérrima! E ensinas ao triste menino
Que existem virtudes e crimes no mundo
E ensinas ao filho que seja brioso,
Que evite dos vícios o abismo profundo ...


E louca, sacodes nesta alma, inda em trevas,
O raio da espr'ança... Cruel ironia!
E ao pássaro mandas voar no infinito,
Enquanto que o prende cadeia sombria! ...



II


Ó Mãe! não despertes est'alma que dorme,
Com o verbo sublime do Mártir da Cruz!
O pobre que rola no abismo sem termo
Pra qu'há de sondá-lo... Que morra sem luz.


Não vês no futuro seu negro fadário,
Ó cega divina que cegas de amor?!
Ensina a teu filho - desonra, misérias,
A vida nos crimes - a morte na dor.


Que seja covarde... que marche encurvado...
Que de homem se torne sombrio reptíl.
Nem core de pejo, nem trema de raiva
Se a face lhe cortam com o látego vil.


Arranca-o do leito... seu corpo habitue-se
Ao frio das noites, aos raios do sol.
Na vida - só cabe-lhe a tanga rasgada!
Na morte - só cabe-lhe o roto lençol.


Ensina-o que morda... mas pérfido oculte-se
Bem como a serpente por baixo da chã
Que impávido veja seus pais desonrados,
Que veja sorrindo mancharem-lhe a irmã.


Ensina-lhe as dores de um fero trabalho...
Trabalho que pagam com pútrido pão.
Depois que os amigos açoite no tronco...
Depois que adormeça co'o sono de um cão.


Criança - não trema dos transes de um mártir!
Mancebo - não sonhe delírios de amor!
Marido - que a esposa conduza sorrindo
Ao leito devasso do próprio senhor! ...


São estes os cantos que deves na terra
Ao mísero escravo somente ensinar.
Ó Mãe que balanças a rede selvagem
Que ataste nos troncos do vasto palmar.



III


Ó Mãe do cativo, que fias à noite
À luz da candeia na choça de palha!
Embala teu filho com essas cantigas...
Ou tece-lhe o pano da branca mortalha.


Castro Alves

A órfã na sepultura


Minha mãe, a noite é fria,
Desce a neblina sombria,
Geme o riacho no val
E a bananeira farfalha,
Como o som de uma mortalha
Que rasga o gênio do mal.


Não vês que noite cerrada?
Ouviste essa gargalhada
Na mata escura? ai de mim!
Mãe, ó mãe, tremo de medo.
Oh! quando enfim teu segredo,
Teu segredo terá fim?


Foi ontem que à Ave-Maria
O sino da freguesia,
Me fez tanto soluçar.
Foi ontem que te calaste...
Dormiste . . os olhos fechaste...
Nem me fizeste rezar! ...


Sentei-me junto ao teu leito,
'Stava tão frio o teu peito,
Que eu fui o fogo atiçar.
Parece que então me viste
Porque dormindo sorriste
Como uma santa no altar.


Depois o fogo apagou-se,
Tudo no quarto calou-se,
E eu também calei-me então.
Somente acesa uma vela
Triste, de cera amarela,
Tremia na escuridão.


Apenas nascera o dia,
À voz do maridedia
Saltei contente de pé.
Cantavam os passarinhos
Que fabricavam seus ninhos
No telhado de sapé.


Porém tu, por que dormias,
Por que já não me dizias
"Filha do meu coração?"
'Stavas aflita comigo?
Mãe, abracei-me contigo,
Pedi-te embalde perdão...


Chorei muito! ai triste vida!
Chorei muito, arrependida
Do que talvez fiz a ti.
Depois rezei ajoelhada
A reza da madrugada
Que tantas vezes te ouvi:


"Senhor Deus, que após a noite
"Mandas a luz do arrebol,
"Que vestes a esfarrapada
"Com o manto rico do sol,


"Tu que dás à flor o orvalho,
"Às aves o céu e o ar,
"Que dás as frutas ao galho,
"Ao desgraçado o chorar;


"Que desfias diamantes
"Em cada raio de luz,
"Que espalhas flores de estrelas
"Do céu nos campos azuis;


"Senhor Deus, tu que perdoas
"A toda alma que chorou,
"Como a clícia das lagoas,
"Que a água da chuva lavou;


"Faze da alma da inocente
"O ninho do teu amor,
"Verte o orvalho da virtude
"Na minha pequena flor.


"Que minha filha algum dia
"Eu veja livre e feliz! ...
"Ó Santa Virgem Maria,
"Sê mãe da pobre infeliz."


Inda lembras-te! dizias,
Sempre que a reza me ouvias
Em prantos de a sufocar:
"Ai! têm orvalhos as flores,
"Tu, filha dos meus amores,
"Tens o orvalho do chorar".


Mas hoje sempre sisuda
Me ouviste... ficaste muda,
Sorrindo não sei pra quem.
Quase então que eu tive medo...
Parecia que um segredo
Dizias baixinho a alguém.


Depois... depois... me arrastaram...
Depois... sim... te carregaram
P'ra vir te esconder aqui.
Eu sozinha lá na sala...
'Stava tão triste a senzala...
Mãe, para ver-te eu fugi...


E agora, ó Deus!... se te chamo
Não me respondes!... se clamo,
Respondem-me os ventos suis...
No leito onde a rosa medra
Tu tens por lençol a pedra,
Por travesseiro uma cruz.


É muito estreito esse leito?
Que importa? abre-me teu peito
— Ninho infinito de amor.
— Palmeira — quero-te a sombra.
— Terra — dá-me a tua alfombra.
— Santo fogo — o teu calor.


Mãe, minha voz já me assusta...
Alguém na floresta adusta
Repete os soluços meus.
Sacode a terra... desperta!...
Ou dá-me a mesma coberta'
Minha mãe... meu céu... meu Deus...

Castro Alves

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Consciência? Opinião? Previsão?

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